quinta-feira, 13 de setembro de 2018

7a Mostra de Teatro Cenáculo (RJ)

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Foto: divulgação

10 espetáculos se encontram com o público de Duque de Caxias

Na imagem, a equipe organizadora, os jurados e os vencedores

A 7ª Mostra de Teatro Cenáculo, realizada pela Cia. Cerne e pela SZ Comunicação, reuniu, no Teatro do SESI em Duque de Caxias, dez espetáculos teatrais entre os dias 1 e 2 de setembro. Todas as apresentações foram gratuitas e distribuídas nos três turnos de cada dia do final de semana. As produções participantes disputaram 16 troféus entregues a partir da opinião da equipe realizadora (Melhor Produção), do público (Melhor Espetáculo por júri popular) e dos jurados: Marcos Covask, Márcio Vasconcellos e eu. Destacaram-se positivamente os espetáculos “Uma mala para dois palhaços”, da IneptaCia (Belford Roxo/RJ); “Omi – Do leitor ao mar”, da Cia. Ávida (São Gonçalo/RJ); e principalmente “Querida Celie...”, da Espaço Núcleo (Limeira/SP). Abaixo alguns comentários gerais sobre todos os espetáculos apresentados. 

1º dia – 1º de setembro 
“Gramellôs – o show”, do Núcleo GEMA (Rio de Janeiro/RJ), é um espetáculo que explora bem a linguagem clownesca. Na proposta de narrativa, dois palhaços são chamados para apresentarem seus trabalhos na mesma hora e local, tendo que dividir o picadeiro. Todas as situações que preenchem o tempo surgem, então, a partir dos sabores e dos dissabores dessa disputa. Apesar de apresentarem excelente conexão com o público, a montagem defendida pelos atores Tiago Carva (Palhaço Churumello) e Renato Garcia (Palhaço Gracinha) perdeu diversas possibilidades de explorar melhor alguma poética que trouxesse mais beleza e profundidade à cena. Dirigida por Chicho Chochim, eis uma boa peça! 

“Nabila”, da Carranca Coletivo (Rio de Janeiro/RJ), esforçou-se para explorar diversas temáticas sem propriamente se sair bem em quase nenhuma delas. No texto de Fernanda Báfica e de Gabriel Aquino, apenas a questão da velhice conseguiu melhor destaque, talvez por ótima interpretação de Araci Breckenfeld, que interpretou o personagem título. A direção de arte de Analu Prestes, a iluminação de Fernanda Mantovani e criação musical de Cayê Milfont também foram aspectos positivos. Além de Breckenfeld, Natally do Ó, Thiago Carvalho e Mariana Queroz também atuaram, essa última em postivo destaque. A peça tem sua direção assinada por Báfica e por Juracy de Oliveira. 

“Lima entre nós: estudo compartilhado – a atualidade de Lima Barreto”, da Queimados Encena (Queimados/RJ), é um espetáculo que tem como maior mérito o de se debruçar, em seu processo, nos escritos não-ficcionais de Afonso Henrique de Lima Barreto (1881-1922). Autor carioca mais conhecido pelo romance “Triste fim de Policarpo Quaresma”, o escritor deixou diversas reflexões pouco lembradas senão pelo esforço do grupo dirigido, nesse trabalho, por Márcia do Valle. Apesar de bom trabalho de interpretação, o ator Leandro Santanna não tem ferramentas dramatúrgicas que espante a monotonia do espetáculo. Do início ao fim, uma sucessão de tempos mortos são resultados de inúmeras reflexões filosóficas de várias ordens que, sem trazer qualquer movimento, faz a plateia dormir. Uma pena! 

“Lixo no lugar errado, tô fora!” é uma deliciosa comédia educativa da Cia. Arte Popular (Duque de Caxias/RJ). Através de uma dramaturgia simples e bem escrita de Cesário Candhí e com uma direção positivamente pouco aparente de Tom Pires, o espetáculo é leve, divertido e educativo, atingindo plenamente todos os seus objetivos. Na narrativa, Dona Rosilda (Eve Penha) é surpreendida por sua vizinha Mariquita (Nancy Calixto) ao jogar lixo fora do horário do caminhão de coleta. O gesto atrai ratos e baratas para o local e dificulta o trabalho de catadores que, muitas vezes, ganham a vida através da reciclagem. Com ótimas canções originais de Beto Gaspari, que as interpreta ao vivo, a peça levantou a plateia com seu enorme carisma. Além do diretor e do músico, Pedro Lages também esteve no elenco em positivo destaque. 

“O Pulgo e o Elefante – o que conta o Sabiá” (Rio de Janeiro/RJ) sugiu a partir do romance infanto-juvenil “História de dois amores”, de Carlos Drummond de Andrade, mal adaptado dramaturgicamente por Alexandra Velásquez. A produção apresenta um belo quadro composto pelos figurinos de Ticiana Passos, pela direção musical de Virgínia Van Der Llind, pela luz de Paulo Denizot e pelo cenário do diretor. Tem também bons trabalhos de interpretação de Carolina Laura, de Dany Stenzel (Pulgo) e de João Vitor Novaes (Elefante), mas todos esses elementos carecem de mais sólida sustentação dramática. A narrativa consiste na viagem de um elefante que parte para o outro lado da África sem saber que, junto dele, está uma pulga que lhe acompanha. Lá ele encontra uma companheira e aí a pulga, ou melhor, “o Pulgo” também sente que é hora de procurar alguém. Ou seja, uma estrutura narrativa paupérrima incapaz de trazer maiores glórias ao todo da obra. 

“Querida Celie...” é uma belíssima versão não-autorizada do livro “A cor púrpura”, da romancista norte-americana Alice Walker, que foi lançado em 1982, adaptado para o cinema, em 1985, com direção de Steven Spielberg; e para o teatro musical, em 2005, com músicas e letras de Stephen Bray, Brenda Russell e Allee Willis. A história gira em torno de Celie (Matheus Gonçalvez), violentada pelo pai desde criança, e entregue nas mãos de Albert, um viúvo cheio de filhos, que precisava de uma esposa para cuidar de sua casa e de sua prole. Ambientada na primeira metade do século XX no sul dos Estados Unidos, a narrativa evoca, entre negros, a repressão interracial na qual as mulheres são as maiores vítimas. Dirigido por Jonatas Noguel, que também assina as ótimas adaptação e o figurino, o espetáculo faz uso de excelentes recursos na construção dos quadros e na articulação deles, oferecendo ótimo ritmo, imagens cheias de potência e conteúdo complexo bem trabalhado. Felipe Santos e Allan Araujo completam o elenco, esse último em enorme destaque sobretudo em suas aparições como a personagem Shug Avery. Ainda em busca da difícil autorização para legitimar sua montagem, o grupo luta por oferecer ao seu público, em grade comercial, esse belíssimo espetáculo que merece vida longa e profícua nos palcos brasileiros. 

2º dia – 2 de setembro 
“Uma mala para dois palhaços”, da IneptaCia. (Belford Roxo/RJ), parte de um conflito simples, mas que gera situações bastante criativas. Na gravação de um filme, há dois palhaços, mas, por um erro qualquer, apenas uma mala está disponível para ambos. Na luta pelo foco, os dois disputam o objeto de diversos modos possíveis, o que gera o riso, além de movimentar a narrativa e agilizar o ritmo. Cassio Duque (Palhaço Tortobias) e Junior Melo (Palhaço Escafura) apresentam amplo repertório expressivo no espetáculo que tão brilhantemente escrevem, dirigem e defendem em cena. Eis um espetáculo clownesco simples e bastante meritoso em todos os seus aspectos. 

“Um dedo de prosa”, do Coletivo Allegro (Guarujá/SP), é um delicioso monólogo que tem, em sua dramaturgia, seu aspecto mais importante. De um modo estável, o texto consiste na chegada da personagem Jacira, uma mulher simples do interior de São Paulo, à cidade onde o espetáculo está de fato acontecendo. De maneira instável, e brilhante!, o texto se completa com experiências reais que envolvem um processo de ficcionalização entre os costumes da localidade onde a apresentação ocorre e o ponto de vista estrangeiro da humilde Jacira, interpretada pela atriz e autora Fátima Martins. A relação entre a peça e o público se firma de imediato e um aura mágica se instaura, possibilitando o experimento de diversos sabores: o novo descoberto e o velho redescoberto. Com destaque também para o figurino assinado por Deraldo e Elisângela Sena, eis aqui uma outra bela participação paulista no festival de Duque de Caxias. 

“Omi – do leito ao mar”, da Cia. Ávida (São Gonçalo/RJ), é um dos espetáculo que justamente mais tem colhido elogios em todos os lugares onde se apresenta. Com texto e direção de Gabriel Mendes, tem no elenco as ótimas interpretações de Nívea Santana, Kadú Monteiro, Michael Alves, Erika Ferreira e Ivan de Oliveira. A narrativa apresenta em torno de cinco lendas da mitologia africana, todas elas unidas pelo tema da “água” (omi em iorubá). Devem-se destacar também os figurinos de Valéria Bandeira, o cenário de Ronald Lima, a luz de Raphael Grampola, a direção de movimento de Anderson Hanzen e, em especial, a direção musical de Kadú Monteiro e de Raquel Terra. Em resumo, trata-se de uma produção especialíssima que vale a pena ser vista e revista em todas as oportunidades. 

“Uma ciranda para mulheres rebeldes”, de As Dramáticas (Rio de Janeiro/RJ), tem o mérito de resgatar diversas histórias pouco conhecidas de mulheres que, de algum modo, participaram da Revolução Socialista, iniciada de forma mais efetiva, em 1917, com a tomada do poder na Rússia. Dirigido por Adriana Maia, e com ela no elenco ao lado de Ana Achcar, Anna Wiltgen e Dadá Maia, a articulação entre as histórias não fica exatamente clara ao público. A plateia demora para interagir com o acontecimento teatral, isso dependendo de seu grau de conhecimento da história da Rússia e do socialismo/comunismo no mundo sobretudo na primeira metade do século XX. A perspectiva tem alguma melhora quando o nome da vereadora carioca Marielle Franco (1979-2018) é citado. Nesse momento, “Uma ciranda” passa a ganhar maior significado, mas aí a peça termina. Eis um espetáculo que, assim como está, é para um público bastante específico, mas que tem seus méritos enquanto obra de arte. 

Espetáculo vencedor


A premiação 
A cerimônia de premiação aconteceu na noite de domingo, dia 2 de setembro. Os premiados levaram para casa um troféu e todos os indicados foram agraciados com uma medalha. Também os jurados ganharam um troféu, um bonito gesto de agradecimento e cordialidade. 

*

Melhor Figurino: 
Ticiana Passos – O Pulgo e o Elefante 
Tom Pires – Lixo no lugar errado, tô fora! 
Valério Lima – Omi, do leito ao mar – VENCEDOR 

Melhor Maquiagem: 
O Pulgo e o Elefante - VENCEDOR 
Lixo no lugar errado, tô fora 
Omi, do leito ao mar 

Melhor Iluminação:
Jonatas Noguel – Querida Cellie... - VENCEDOR 
Paulo Denizot – O Pulgo e o Elefante 
Raphael Grampola – Omi, do leito ao mar 

Melhor Cenário: 
Adriano Ferreira – Uma ciranda para mulheres rebeldes 
Espaço Núcleo – Querida Cellie... - VENCEDOR 
Tom Pires – O Pulgo e o Elefante 

Melhor Trilha Sonora / Sonoplastia: 
Beto Gaspari – Lixo no lugar errado, tô fora! 
Kadú Monteiro e Raquel Terra – Omi, do leito ao mar – VENCEDORES 
Virgínia Van Der Lind – O Pulgo e o Elefante 

Melhor Pesquisa e Desenvolvimento em linguagem cênica: 
Omi, do leito ao mar 
Querida Cellie... 
Uma mala para dois palhaços – VENCEDOR 

Melhor texto original: 
Cássio Duque e Junior Mello – Uma mala para dois palhaços 
Cesário Candhí – Lixo no lugar errado, tô fora! 
Gabriel Mendes – Omi, do leito ao mar – VENCEDOR 

Melhor Atriz Coadjuvante: 
Eve Penha – Lixo no lugar errado, tô fora! 
Mariana Queiroz – Nabila 
Nancy Calixto – Lixo no lugar errado, tô fora – VENCEDORA 

Melhor Ator Coadjuvante 
Allan Araujo – Querida Cellie... - VENCEDOR 
Pedro Lages – Lixo no lugar errado, tô fora! 
Thiago Carvalho – Lixo no lugar errado, tô fora! 

Melhor Atriz: 
Ana Achcar – Uma ciranda para mulheres rebeldes 
Aracy Brackenfeld – Nabila – VENCEDORA 
Érika Ferreira – Omi, do leito ao mar 

Melhor Ator: 
Cássio Duque – Uma mala para dois palhaços 
Ivan de Oliveira – Omi do leito ao mar 
Junior Mello – Uma mala para dois palhaços 
Kadú Monteiro – Omi, do leito ao mar 
Matheus Gonçalvez – Querida Cellie... – VENCEDOR 
Michael Alves – Omi, do leito ao mar 

Melhor Produção: 
As Dramáticas, Uma ciranda para mulheres rebeldes – VENCEDORAS 
Espaço Núcleo, Querida Cellie... 
Inepta Cia., Uma mala para dois palhaços 

Prêmio Especial do Júri 
Um dedo de prosa – Pelo modo como entorno cultural do lugar onde a apresentação vai ocorrer se envolve no texto dramatúrgico do espetáculo. 

Melhor Direção: 
Jonatas Noguel – Querida Cellie... - VENCEDOR 
Cassio Duque e Junior Mello – Uma mala para dois palhaços 
Gabriel Mendes – Omi, do leito ao mar 

Melhor Espetáculo pelo Júri Popular: 
3º lugar – Omi, do leito ao mar 
2º lugar – Uma mala para dois palhaços 
1º lugar – Lixo no lugar errado, tô fora! 

Melhor Espetáculo: 
3º lugar - Uma mala para dois palhaços 
2º lugar - Omi, do leito ao mar 
1º lugar – Querida Cellie... 

domingo, 15 de abril de 2018

LTDA (RJ)

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Foto: Ricardo Borges

Brunna Scavuzzi e Lucas Lacerda


Uma direção criativa de Debora Lamm

“LTDA” é o mais novo espetáculo do Coletivo Ponto Zero, uma companhia de atores baianos radicada no Rio de Janeiro que assinou o ótimo “Curral Grande” há dois anos. Com um texto interessante de Diogo Liberano, mas que peca pelo excesso de linearidade, a projeto investe meritosamente no tema das “fake news” (notícias falsas), essa uma das pautas mais essenciais dos dias que vivemos no Brasil. A direção de Debora Lamm, pela criatividade, é o ponto alto da montagem que tem, no elenco, as interpretações de Brisa Rodrigues, Brunna Scavuzzi, Leandro Soares, Lucas Lacerda e de Orlando Caldeira com destaque para a primeira. A peça, que recém estreou, fica em cartaz no absurdamente congelante Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura, na Cinelândia, centro do Rio de Janeiro, até o dia 26 de maio. 

Dramaturgia linear demais 
Embora deva ser aplaudida em função do trato com o tema das “fake news”, a dramaturgia de Diogo Liberano não é boa porque é linear demais. Desde o começo da peça, sabe-se indubitavelmente quem é o herói – o jovem Edimilson – e quem são os vilões – os sócios Lydio e Lenise. Eles se reconhecem, inclusive entre si, como nessas funções narrativas e a estrutura dramática inicial se mantém intacta até o final da história sem alterações. Nos trechos finais, é possível notar a falência das forças dramatúrgicas até o apelo a algo emotivo que possa trazer algum brilho à narrativa. É quando dados estatísticos sobre a mortandade de afrodescendentes no Brasil e, em especial, o caso do assassinato da vereadora Marielle Franco são citados. Esses dois aspectos, de um modo geral, nada têm a ver com o tema central de “LTDA” a menos que, em um esforço reflexivo, consideremos que tudo tem a ver com “fake news” no Brasil, o que não é de todo uma inverdade. 

A narrativa começa quando Edimilson (Leandro Soares), recém saído de uma graduação em jornalismo, faz uma entrevista para ser admitido como funcionário em uma empresa de comunicação. Na antessala da entrevista, os sócios Lydio (Lucas Lacerda) e Lenise (Brunna Scavuzzi) têm um diálogo acirrado que demonstra as divergências entre os colegas acumuladas desde muitos anos. O candidato descobre - sem muito esforço e inclusive com a ajuda dos entrevistadores - que a empresa, na verdade, se trata de uma célula criadora e multiplicadora de notícias falsas. Elas visam criar uma realidade a partir da qual o interesse da massa consumidora se assanhe, aumentando as vendas do produto do cliente contratante. Na boca dos personagens, de modo claro e direto, há a certeza de que essa é uma atividade antiética (e perigosa!) em todos os termos, desde os profissionais até os sociais. Motivado pela sua falta de dinheiro e pela necessidade de sobrevivência, Edimilson se deixa contratar [e não fica exatamente claro porque ele não foi preterido por outros candidatos menos questionadores]. 

Nessa dramaturgia de Liberano, há três investidas interessantes às quais se espera algum desenvolvimento que infelizmente não chega, o que é frustrante. Como já se disse, há duas forças opostas no texto, cada uma delas representada por algum personagem. Edimilson, ao ser contratado pela empresa, corre o risco de sucumbir aos seus ideais, mas em nenhum momento isso acontece. Até o final de “LTDA”, ele será o herói puro e incorruptível que se conheceu no início. Do outro lado, sobretudo por parte de Lenise, há dissidência iminente na empresa. É possível que a “força do mal” possa se corromper com a entrada do mocinho, mas, em qualquer lugar da narrativa, não há qualquer desenvolvimento dessa possível transformação também. 

Por tudo isso, o personagem mais interessante de “LTDA” é o de Luana (Brisa Rodrigues). Ela já era uma funcionária da empresa antes da chegada de Edimilson. Não se sabe se ela faz parte da equipe criativa ou se é só integrante do corpo burocrático, mas se percebe que ela nem é do mal, nem é do bem. Habitando em um lugar para além da ética, ela está, durante todo o recorte que se vê no texto, absorta em seus próprios dilemas sem participar nem de um momento, nem de outro. O problema disso, voltando à questão inicial do excesso de linearidade, é que, mesmo com ela, o equilíbrio se mantém inabalável. 

Um ponto, a princípio, enigmático de “LTDA” é a figura do Narrador (Orlando Caldeira). Ele descreve as cenas, apresenta os personagens e as situações e tem poder de comando do que acontece na narrativa sem nunca exatamente se apresentar. Lá pelas tantas, descobre-se que ele é o dramaturgo, escrevendo – com má vontade - a história de Edimilson, mas que preferiria estar trabalhando sobre sua própria história. Em linhas gerais, nessa peça, o Narrador é um alter ego de Diogo Liberano que, por algum motivo, preferiu não estar ele próprio no palco como fez em “Sinfonia sonho”, espetáculo da sua companhia Teatro Inominável que estreou em 2012. A falta de função dramatúrgica do personagem não lhe traz qualquer mérito infelizmente. 

Sendo assim, os méritos da dramaturgia de “LTDA” se reduzem a dois aspectos: o primeiro diz respeito ao modo como Liberano sustenta o interesse da audiência, criando zonas de possíveis conflitos que infelizmente não acontecem. O segundo, e mais importante, se refere à atualidade do tema da dramaturgia. O problema desse aspecto, porém, é que o texto faz a reflexão pelo público: ele próprio diz como o tema deve ser encarado, ele mesmo trata a audiência como uma massa acéfala incapaz de tomar partido, quase recaindo sobre os pontos que critica na sociedade além da narrativa. Enfim, não é bom. 

Ticiana Passos e Ana Luzia de Simoni ao lado de Debora Lamm 
O bom é que “LTDA” recebeu de Debora Lamm uma direção bastante criativa. Cada novo quadro surge em cena de um jeito diferente e interessante em que se exploram positivamente possibilidades cênicas bastante valiosas. Os Sócios, diferente dos demais personagens, usam um microfone para se comunicar em talvez uma referência sobre o poder de sua voz na mídia. O núcleo principal da narrativa acontece em um pequeno tablado no centro do palco, que divide o espaço cênico em zonas mais e menos privilegiadas. Em um determinado momento, quando CC está conversando com Luana, o Narrador vai substituindo os objetos da mão da primeira e, assim, alargando o campo semântico do diálogo ao infinito. E, assim, poder-se-iam citar vários pequenos detalhes do espetáculo que reforçam os elogios à Lamm, assistida por Junior Dantas, nesse seu trabalho de direção. 

Há ainda em “LTDA” ótima colaboração dos figurinos de Ticiana Passos. Como sempre, ela age em favor do quadro, compondo-o em uma divisão de cores que é muito interessante. O guarda-roupa, que já é uma marca de Passos como artista visual, é composto por um vestuário quase realista com o qual o público se identifica e, melhor ainda, se localiza na história, essa trazida para perto de si. Pode-se destacar o casaco usado por Lenise como elemento que, saindo fora da curva, chama a atenção para si e auxilia na valorização de todo o resto positivamente. O visagismo é assinado por Josef Chasilew 

O desenho de luz de Ana Luzia de Simoni participa ativamente do empenho de Lamm em melhorar o ritmo do espetáculo apesar do marasmo do texto. Com colaborações bastante específicas e pontuais, o feito traz grandes méritos ao quadro desde a cena de abertura, às paisagens de conflito e até aos trechos de quebra de quarta parede. A direção musical de Marcello H., em alguns momentos, concorre com a voz dos atores e com o ar condicionado do teatro, mas sobrevive aos problemas e faz boa participação. 

Bom conjunto de atuações 
No que se refere às interpretações, Brunna Scavuzzi (Lenise) e Orlando Caldeira (Narrador) apresentam bons trabalhos, mas sem grandes destaques, atuando em zonas confortáveis, justas, honestas, mas sem brilho. Lucas Lacerda (Lídio) é quem mais se esforça para criar quadros mais complexos em sua composição, mas provavelmente o ator sofra pela falta de conflito no modo como seu personagem foi criado pela dramaturgia. É interessante notar como ele saboreia as palavras, como usa bem o corpo, as pausas e as intenções, mas também é desanimador reparar como tudo isso parece se esgotar quando se percebe que nada diferente acontecerá com ele na narrativa. 

Leandro Soares (Edimilson) passa dois terços da peça apresentando uma atuação inexpressiva através de um uso da voz sem movimentos e feições sem qualquer transformação. No trecho final, porém, há uma considerável modificação em todos os aspectos, o que faz com que a peça termine com melhores luzes sobre seu trabalho felizmente. Brisa Rodrigues, o maior destaque do elenco, se serve bastante bem de uma personagem relativamente isolada da narrativa, trazendo uma composição bastante bem defendida por meio de sua postura, do seu tom de voz e de suas expressões. Ao longo da sessão, ela se modifica exibindo ótimo repertório expressivo que conquista o público e traz mais aplausos ao conjunto. 

O mérito da pauta das “fake news” 
O bom espetáculo “LTDA” dá importante contribuição à grade de programação teatral carioca por pautar as “fake news” no debate, mas também por se viabilizar a partir da ótima direção de Debora Lamm e também de meritosas colaborações de Ticiana Passos, Ana Luzia de Simoni e de Brisa Rodrigues. Que faça uma bonita carreira! 

*

Ficha técnica:

Dramaturgia: Diogo Liberano
Direção: Debora Lamm
Direção de Produção: Lucas Lacerda
Direção de Movimento: Denise Stutz
Criação Sonora: Marcelo H
Figurino: Ticiana Passos
Visagismo: Josef Chasilew
Iluminação: Ana Luzia de Simoni
Cenário: Debora Lamm
Assistente de Direção: Junior Dantas
Assistente de Figurino: Brisa Rodrigues
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Programação Visual: Daniel de Jesus
Fotos de Divulgação: Ricardo Borges
Making Off: Mika Makino e Tatiana Delgado
Marketing Digital: Eddesign - Maria Alice Edde
Produção Executiva: Geovana Araujo Marques
Assistente de Produção: Julia Kruger e Naomi Savage
Gestão Fnanceira: Carlos Darzé e Lucas Lacerda
Realização: Coletivo Ponto Zero

Personagens e elenco:
Lydio, o sócio - Lucas Lacerda
Lenise, a sócia - Brunna Scavuzzi
Luana, a antiga funcionária - Brisa Rodrigues
Edimilson, o novo funcionário - Leandro Soares
O leitor - Orlando Caldeira

sábado, 14 de abril de 2018

Nascituros (RJ)

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Foto: divulgação

Bruno Marques e John Marcatto


Boas intenções em uma peça ruim

“Nascituros” é a mais nova montagem do jovem Tríptico Coletivo. O espetáculo ganhou notoriedade quando teve sua estreia, no Castelinho do Flamengo em outubro do ano passado, adiada por uma pouco esclarecida “pane elétrica”. Na ocasião, o Brasil discutia sobre arte erótica nos museus. Desde o fim de março, a produção está em cartaz no Centro Cultural da Justiça Federal, onde ficará disponível ao público até o próximo dia 6 de maio. Infelizmente, porém, ainda que tenha boas intenções, é difícil encontrar, em sua estrutura, muitos méritos estéticos. Tanto o texto, como a direção e sobretudo as atuações têm vários problemas que merecem a atenção nessa análise. Além de Marcatto, também estão no elenco Bruno Marques, Mariana Bridi e Marilha Galla. 

Uma dramaturgia muito confusa 
Ficará difícil explorar a dramaturgia de “Nascituros” sem revelar da peça alguns segredos. É bom parar aqui a leitura dessa análise se a montagem ainda não foi vista ou se as surpresas são consideradas relevantes. Vale dizer, de início, que o primeiro problema do conjunto é que o texto de John Marcatto e a encenação de Victor Fontoura aparentemente partem da pretensão de abordar muitas questões, mas infelizmente não chegam a aprofundar qualquer uma delas. Durante boa parte da sessão, o público fica perdido, tentando reconhecer os argumentos do debate ou ao menos identificar os pontos mais sólidos da narrativa sem sucesso. No último terço, enfim, é possível que as coisas comecem a ficar mais claras, mas o que sobra parece destruir o que de melhor havia sido encontrado anteriormente. Antes de se tratar propriamente desses problemas, note-se que texto e encenação, aqui, serão observados conjuntamente. Da plateia, a crítica não consegue exatamente saber, nesse caso, o que é de um e o que é de outro. 

A peça, cujo título é sinônimo de “feto” e significa “ser humano que está para nascer”, começa com um monólogo sobre trauma. Em seguida, dois atores (homens cis) surgem em cena, em um diálogo truncado – muito pouco realista pelo excesso de palavras difíceis e de um discurso límpido -, discutindo uma relação. Um se chama Cris (Bruno Marques) e o outro se chama Francis (John Marcatto). Eles tiveram uma relação muitos anos antes, o primeiro partiu para várias viagens pela Europa, o segundo ficou e escreveu uma peça de teatro em que o ex-namorado é um dos personagens. 

A cena dá lugar a uma outra com um diálogo parecido, mas que é defendido por duas atrizes (mulheres cis). Quando lá pelas tantas, elas também se chamam de Francis (Marilha Galla) e de Cris (Mariana Bridi), fica claro que, possivelmente, tem-se apenas uma história cuja interpretação é compartilhada por atores de quaisquer gêneros. (Os nomes Cris e Francis, aliás, são palavras cujos gêneros não são revelados.) Nesse momento, em termos de análise de fruição, passam a duelar, de um lado, a narrativa e, de outro, a forma como ela ganha corpo. Ou seja, o teatro (a história de Cris e de Francis) e o metateatro (quem interpreta esses personagens, quem escreve a história que eles estão vivendo e com quais intenções e consequências). 

[Duelos como esse são muito interessantes dentro dos estudos de teatro contemporâneo. O problema desse caso em particular é que, nesse início de espetáculo, não está clara qual é realmente a grande questão de “Nascituro”: um feto, um trauma, questões de relacionamento amoroso, problemas relativos a preconceito de orientação sexual (são dois homens ou duas mulheres), etc. Com essas dúvidas na cabeça, avança-se para a segunda parte do espetáculo.] 

Na segunda parte de “Nascituros”, há uma revelação. No passado, quando Cris e Francis eram crianças e estavam descobrindo juntos a sexualidade, Cris foi assediado pelo pai de Francis. Mais do que isso, houve a manutenção de um relacionamento pedófilo que permaneceu às escondidas. Durante um certo tempo, Cris se relacionou sexualmente tanto com Francis quanto com seu pai. A história, então, vem à tona. Francis enfrenta o pai em defesa do namorado, mas Cris surpreendentemente defende seu agressor. Cris é expulso de casa e, ao questionar o namorado sobre seu comportamento, ouve dele que preferia o sexo com o pai ao com o filho. E obviamente o namoro termina. 

Dominando os códigos do teatro contemporâneo, não é tão difícil identificar o jogo proposto pela dramaturgia e pela encenação. Mesmo sem trocas de figurino e sem cenário, entende-se que os quatro atores se revezam na viabilização de todos os personagens envolvidos. A percepção, porém, nesse espetáculo, nunca é tranquila, a fruição é muito racional, pois “Nascituros” exige muito e não devolve em igual medida. Suspeita-se de que o trauma anunciado na abertura seja o do assédio sexual que Cris sofreu enquanto vítima do pai de seu amigo. Essa teoria, porém, não é sólida diante da defesa que o agredido empreende em relação ao seu agressor. Fica a pergunta: o trauma diz respeito ao drama de Francis ao descobrir-se filho de um pedófilo e ainda por cima preterido em favor dele? Ou à pedofilia? Os dois traumas são equiparáveis na opinião da de “Nascituros”? 

Na terceira parte da dramaturgia, ganha notoriedade a aventura de Cris como dramaturgo de sua própria história. Dez anos depois do fim do seu namoro, ele é dignosticado como um portador de um transtorno dissociativo. E escrever uma peça com seus dramas é uma recomendação médica em favor de sua cura (?). Francis é contra, não aceita que só um ponto de vista dos fatos se torne público. O diálogo entre eles acontece próximo a uma praça em que um casal homossexual está namorando. Em meio à guerra entre os dois pela posse da verdade, esse casal – que só os personagens veem – é agredido supostamente por homofobia. 

No trecho final, o público de “Nascituros” descobre que toda a narrativa corre o sério risco de ser só uma alucinação de alguém hospitalizado: Francis. Sendo assim, portanto, tudo poderia ter sido real ou não. E, nesse sentido, faleceriam as esperanças de algum prêmio pelo sacrifício de ter tentado entender a peça ao longo de noventa minutos de apresentação. 

Muitos problemas nas interpretações 
Para além da dramaturgia, a montagem tem outros problemas. O grupo formado por trauma, homofobia, pedofilia, conflitos entre pais e filhos, conflitos entre namorados e direitos de narrativa já é tenso, mas isso tudo ainda se inviabiliza por outras explorações. Lá pelas tantas, há a apresentação de um programa sensacionalista em cena, talvez criticando a banalidade da internet. Há também uma peça sobre vacas e bois. E tudo isso surge através de quatro atores essencialmente vestindo preto, em palco liso, dividindo-se sem partitura entre todos os personagens. 

O jogo proposto pela direção de Victor Fontoura é tão exigente quanto o de um adolescente que quer o mundo sem saber exatamente o que fará nele. Ao mesmo tempo que quer ser compreendida, “Nascituros” mantém sua fruição dentro de uma racionalidade pesada através somente da qual poderá ser ouvida. Com isso, a peça impede que a experiência entre no campo do sensorial e do saboroso infelizmente. 

As quatro atuações são ruins. O texto é duro de dizer para John Marcatto, Mariana Bridi e para Marilha Gala, esses visivelmente se esforçando em oferecer às palavras algumas marcas de realidade. Com péssima dicção, Bruno Marques nem esse esforço consegue oferecer. Bridi e Galla, explorando ao exagero o histrionismo, fazem uso de gritos, gestos largos e de tom grandiloquente em momentos descabidos talvez no interesse de dar movimento e sal para o conjunto. Marques descansa na figura de jovem alto, loiro e convencionalmente bonito e consolida nisso seus méritos inexistentes. Marcatto, que escreveu o texto, tira proveito do personagem central, investindo nas dores do trauma que seu personagem viveu com alguns bons momentos. 

A iluminação de Poliana Pinheiro deixa os atores no escuro em vários momentos desnecessária e negtivamente. Sátiro Nunes assina um cenário que inexiste. O figurino de Cristina França tem alguma qualidade dentro do que apresenta, mas crê-se que sofreu pela concepção vinda da direção que não lhe deu melhores chances. A sonoplastia de Marcatto e de Fontoura ajudam a apresentar a peça como uma narrativa jovem, pós-romântica e obscura, mas melhor ainda carismática, o que é ótimo.

As boas intenções 
Não é nada divertido produzir uma crítica tão negativa quanto essa a um grupo jovem que começa a sua trajetória profissional. Essa, porém, é uma carreira séria, que exige não apenas o calor das boas intenções, mas também a frieza da reflexão sobre como organizar a criação. “Nascituros”, como já se disse, se perde no aparente afã de dar positivamente a sua contribuição nas discussões sobre o prenconceito de orientação sexual, porque se envolve em outras questões igualmente meritosas tanto do campo social como do estético. Ao final, nem se sabe se Francis e se Cris eram mesmo um casal homossexual ou se, de fato, eles viveram o que podem ter vivido. 

Fica-se na espera de outros espetáculos do Tríptico Coletivo e no desejo de que essa não tenha sido uma experiência traumática para ninguém. 

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Ficha Técnica

Texto: John Marcatto | direção Victor Fontoura
Elenco: Bruno Marques | John Marcatto | Mari Bridi | Marilha Galla
Orientação: Ricardo Kosovski | Iluminação: Poliana Pinheiro | Cenário: Sátiro Nunes | Figurino: Cristina França| Arte: Nikko | Mixagem: DJ Scardua | Marketing cultural: Gloria Dinniz| Produção executiva: Ale Riquena |Assessoria de Imprensa: Duetto Comunicação| Realização: Tríptico Coletivo