domingo, 15 de abril de 2018

LTDA (RJ)

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Foto: Ricardo Borges

Brunna Scavuzzi e Lucas Lacerda


Uma direção criativa de Debora Lamm

“LTDA” é o mais novo espetáculo do Coletivo Ponto Zero, uma companhia de atores baianos radicada no Rio de Janeiro que assinou o ótimo “Curral Grande” há dois anos. Com um texto interessante de Diogo Liberano, mas que peca pelo excesso de linearidade, a projeto investe meritosamente no tema das “fake news” (notícias falsas), essa uma das pautas mais essenciais dos dias que vivemos no Brasil. A direção de Debora Lamm, pela criatividade, é o ponto alto da montagem que tem, no elenco, as interpretações de Brisa Rodrigues, Brunna Scavuzzi, Leandro Soares, Lucas Lacerda e de Orlando Caldeira com destaque para a primeira. A peça, que recém estreou, fica em cartaz no absurdamente congelante Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura, na Cinelândia, centro do Rio de Janeiro, até o dia 26 de maio. 

Dramaturgia linear demais 
Embora deva ser aplaudida em função do trato com o tema das “fake news”, a dramaturgia de Diogo Liberano não é boa porque é linear demais. Desde o começo da peça, sabe-se indubitavelmente quem é o herói – o jovem Edimilson – e quem são os vilões – os sócios Lydio e Lenise. Eles se reconhecem, inclusive entre si, como nessas funções narrativas e a estrutura dramática inicial se mantém intacta até o final da história sem alterações. Nos trechos finais, é possível notar a falência das forças dramatúrgicas até o apelo a algo emotivo que possa trazer algum brilho à narrativa. É quando dados estatísticos sobre a mortandade de afrodescendentes no Brasil e, em especial, o caso do assassinato da vereadora Marielle Franco são citados. Esses dois aspectos, de um modo geral, nada têm a ver com o tema central de “LTDA” a menos que, em um esforço reflexivo, consideremos que tudo tem a ver com “fake news” no Brasil, o que não é de todo uma inverdade. 

A narrativa começa quando Edimilson (Leandro Soares), recém saído de uma graduação em jornalismo, faz uma entrevista para ser admitido como funcionário em uma empresa de comunicação. Na antessala da entrevista, os sócios Lydio (Lucas Lacerda) e Lenise (Brunna Scavuzzi) têm um diálogo acirrado que demonstra as divergências entre os colegas acumuladas desde muitos anos. O candidato descobre - sem muito esforço e inclusive com a ajuda dos entrevistadores - que a empresa, na verdade, se trata de uma célula criadora e multiplicadora de notícias falsas. Elas visam criar uma realidade a partir da qual o interesse da massa consumidora se assanhe, aumentando as vendas do produto do cliente contratante. Na boca dos personagens, de modo claro e direto, há a certeza de que essa é uma atividade antiética (e perigosa!) em todos os termos, desde os profissionais até os sociais. Motivado pela sua falta de dinheiro e pela necessidade de sobrevivência, Edimilson se deixa contratar [e não fica exatamente claro porque ele não foi preterido por outros candidatos menos questionadores]. 

Nessa dramaturgia de Liberano, há três investidas interessantes às quais se espera algum desenvolvimento que infelizmente não chega, o que é frustrante. Como já se disse, há duas forças opostas no texto, cada uma delas representada por algum personagem. Edimilson, ao ser contratado pela empresa, corre o risco de sucumbir aos seus ideais, mas em nenhum momento isso acontece. Até o final de “LTDA”, ele será o herói puro e incorruptível que se conheceu no início. Do outro lado, sobretudo por parte de Lenise, há dissidência iminente na empresa. É possível que a “força do mal” possa se corromper com a entrada do mocinho, mas, em qualquer lugar da narrativa, não há qualquer desenvolvimento dessa possível transformação também. 

Por tudo isso, o personagem mais interessante de “LTDA” é o de Luana (Brisa Rodrigues). Ela já era uma funcionária da empresa antes da chegada de Edimilson. Não se sabe se ela faz parte da equipe criativa ou se é só integrante do corpo burocrático, mas se percebe que ela nem é do mal, nem é do bem. Habitando em um lugar para além da ética, ela está, durante todo o recorte que se vê no texto, absorta em seus próprios dilemas sem participar nem de um momento, nem de outro. O problema disso, voltando à questão inicial do excesso de linearidade, é que, mesmo com ela, o equilíbrio se mantém inabalável. 

Um ponto, a princípio, enigmático de “LTDA” é a figura do Narrador (Orlando Caldeira). Ele descreve as cenas, apresenta os personagens e as situações e tem poder de comando do que acontece na narrativa sem nunca exatamente se apresentar. Lá pelas tantas, descobre-se que ele é o dramaturgo, escrevendo – com má vontade - a história de Edimilson, mas que preferiria estar trabalhando sobre sua própria história. Em linhas gerais, nessa peça, o Narrador é um alter ego de Diogo Liberano que, por algum motivo, preferiu não estar ele próprio no palco como fez em “Sinfonia sonho”, espetáculo da sua companhia Teatro Inominável que estreou em 2012. A falta de função dramatúrgica do personagem não lhe traz qualquer mérito infelizmente. 

Sendo assim, os méritos da dramaturgia de “LTDA” se reduzem a dois aspectos: o primeiro diz respeito ao modo como Liberano sustenta o interesse da audiência, criando zonas de possíveis conflitos que infelizmente não acontecem. O segundo, e mais importante, se refere à atualidade do tema da dramaturgia. O problema desse aspecto, porém, é que o texto faz a reflexão pelo público: ele próprio diz como o tema deve ser encarado, ele mesmo trata a audiência como uma massa acéfala incapaz de tomar partido, quase recaindo sobre os pontos que critica na sociedade além da narrativa. Enfim, não é bom. 

Ticiana Passos e Ana Luzia de Simoni ao lado de Debora Lamm 
O bom é que “LTDA” recebeu de Debora Lamm uma direção bastante criativa. Cada novo quadro surge em cena de um jeito diferente e interessante em que se exploram positivamente possibilidades cênicas bastante valiosas. Os Sócios, diferente dos demais personagens, usam um microfone para se comunicar em talvez uma referência sobre o poder de sua voz na mídia. O núcleo principal da narrativa acontece em um pequeno tablado no centro do palco, que divide o espaço cênico em zonas mais e menos privilegiadas. Em um determinado momento, quando CC está conversando com Luana, o Narrador vai substituindo os objetos da mão da primeira e, assim, alargando o campo semântico do diálogo ao infinito. E, assim, poder-se-iam citar vários pequenos detalhes do espetáculo que reforçam os elogios à Lamm, assistida por Junior Dantas, nesse seu trabalho de direção. 

Há ainda em “LTDA” ótima colaboração dos figurinos de Ticiana Passos. Como sempre, ela age em favor do quadro, compondo-o em uma divisão de cores que é muito interessante. O guarda-roupa, que já é uma marca de Passos como artista visual, é composto por um vestuário quase realista com o qual o público se identifica e, melhor ainda, se localiza na história, essa trazida para perto de si. Pode-se destacar o casaco usado por Lenise como elemento que, saindo fora da curva, chama a atenção para si e auxilia na valorização de todo o resto positivamente. O visagismo é assinado por Josef Chasilew 

O desenho de luz de Ana Luzia de Simoni participa ativamente do empenho de Lamm em melhorar o ritmo do espetáculo apesar do marasmo do texto. Com colaborações bastante específicas e pontuais, o feito traz grandes méritos ao quadro desde a cena de abertura, às paisagens de conflito e até aos trechos de quebra de quarta parede. A direção musical de Marcello H., em alguns momentos, concorre com a voz dos atores e com o ar condicionado do teatro, mas sobrevive aos problemas e faz boa participação. 

Bom conjunto de atuações 
No que se refere às interpretações, Brunna Scavuzzi (Lenise) e Orlando Caldeira (Narrador) apresentam bons trabalhos, mas sem grandes destaques, atuando em zonas confortáveis, justas, honestas, mas sem brilho. Lucas Lacerda (Lídio) é quem mais se esforça para criar quadros mais complexos em sua composição, mas provavelmente o ator sofra pela falta de conflito no modo como seu personagem foi criado pela dramaturgia. É interessante notar como ele saboreia as palavras, como usa bem o corpo, as pausas e as intenções, mas também é desanimador reparar como tudo isso parece se esgotar quando se percebe que nada diferente acontecerá com ele na narrativa. 

Leandro Soares (Edimilson) passa dois terços da peça apresentando uma atuação inexpressiva através de um uso da voz sem movimentos e feições sem qualquer transformação. No trecho final, porém, há uma considerável modificação em todos os aspectos, o que faz com que a peça termine com melhores luzes sobre seu trabalho felizmente. Brisa Rodrigues, o maior destaque do elenco, se serve bastante bem de uma personagem relativamente isolada da narrativa, trazendo uma composição bastante bem defendida por meio de sua postura, do seu tom de voz e de suas expressões. Ao longo da sessão, ela se modifica exibindo ótimo repertório expressivo que conquista o público e traz mais aplausos ao conjunto. 

O mérito da pauta das “fake news” 
O bom espetáculo “LTDA” dá importante contribuição à grade de programação teatral carioca por pautar as “fake news” no debate, mas também por se viabilizar a partir da ótima direção de Debora Lamm e também de meritosas colaborações de Ticiana Passos, Ana Luzia de Simoni e de Brisa Rodrigues. Que faça uma bonita carreira! 

*

Ficha técnica:

Dramaturgia: Diogo Liberano
Direção: Debora Lamm
Direção de Produção: Lucas Lacerda
Direção de Movimento: Denise Stutz
Criação Sonora: Marcelo H
Figurino: Ticiana Passos
Visagismo: Josef Chasilew
Iluminação: Ana Luzia de Simoni
Cenário: Debora Lamm
Assistente de Direção: Junior Dantas
Assistente de Figurino: Brisa Rodrigues
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Programação Visual: Daniel de Jesus
Fotos de Divulgação: Ricardo Borges
Making Off: Mika Makino e Tatiana Delgado
Marketing Digital: Eddesign - Maria Alice Edde
Produção Executiva: Geovana Araujo Marques
Assistente de Produção: Julia Kruger e Naomi Savage
Gestão Fnanceira: Carlos Darzé e Lucas Lacerda
Realização: Coletivo Ponto Zero

Personagens e elenco:
Lydio, o sócio - Lucas Lacerda
Lenise, a sócia - Brunna Scavuzzi
Luana, a antiga funcionária - Brisa Rodrigues
Edimilson, o novo funcionário - Leandro Soares
O leitor - Orlando Caldeira

sábado, 14 de abril de 2018

Nascituros (RJ)

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Foto: divulgação

Bruno Marques e John Marcatto


Boas intenções em uma peça ruim

“Nascituros” é a mais nova montagem do jovem Tríptico Coletivo. O espetáculo ganhou notoriedade quando teve sua estreia, no Castelinho do Flamengo em outubro do ano passado, adiada por uma pouco esclarecida “pane elétrica”. Na ocasião, o Brasil discutia sobre arte erótica nos museus. Desde o fim de março, a produção está em cartaz no Centro Cultural da Justiça Federal, onde ficará disponível ao público até o próximo dia 6 de maio. Infelizmente, porém, ainda que tenha boas intenções, é difícil encontrar, em sua estrutura, muitos méritos estéticos. Tanto o texto, como a direção e sobretudo as atuações têm vários problemas que merecem a atenção nessa análise. Além de Marcatto, também estão no elenco Bruno Marques, Mariana Bridi e Marilha Galla. 

Uma dramaturgia muito confusa 
Ficará difícil explorar a dramaturgia de “Nascituros” sem revelar da peça alguns segredos. É bom parar aqui a leitura dessa análise se a montagem ainda não foi vista ou se as surpresas são consideradas relevantes. Vale dizer, de início, que o primeiro problema do conjunto é que o texto de John Marcatto e a encenação de Victor Fontoura aparentemente partem da pretensão de abordar muitas questões, mas infelizmente não chegam a aprofundar qualquer uma delas. Durante boa parte da sessão, o público fica perdido, tentando reconhecer os argumentos do debate ou ao menos identificar os pontos mais sólidos da narrativa sem sucesso. No último terço, enfim, é possível que as coisas comecem a ficar mais claras, mas o que sobra parece destruir o que de melhor havia sido encontrado anteriormente. Antes de se tratar propriamente desses problemas, note-se que texto e encenação, aqui, serão observados conjuntamente. Da plateia, a crítica não consegue exatamente saber, nesse caso, o que é de um e o que é de outro. 

A peça, cujo título é sinônimo de “feto” e significa “ser humano que está para nascer”, começa com um monólogo sobre trauma. Em seguida, dois atores (homens cis) surgem em cena, em um diálogo truncado – muito pouco realista pelo excesso de palavras difíceis e de um discurso límpido -, discutindo uma relação. Um se chama Cris (Bruno Marques) e o outro se chama Francis (John Marcatto). Eles tiveram uma relação muitos anos antes, o primeiro partiu para várias viagens pela Europa, o segundo ficou e escreveu uma peça de teatro em que o ex-namorado é um dos personagens. 

A cena dá lugar a uma outra com um diálogo parecido, mas que é defendido por duas atrizes (mulheres cis). Quando lá pelas tantas, elas também se chamam de Francis (Marilha Galla) e de Cris (Mariana Bridi), fica claro que, possivelmente, tem-se apenas uma história cuja interpretação é compartilhada por atores de quaisquer gêneros. (Os nomes Cris e Francis, aliás, são palavras cujos gêneros não são revelados.) Nesse momento, em termos de análise de fruição, passam a duelar, de um lado, a narrativa e, de outro, a forma como ela ganha corpo. Ou seja, o teatro (a história de Cris e de Francis) e o metateatro (quem interpreta esses personagens, quem escreve a história que eles estão vivendo e com quais intenções e consequências). 

[Duelos como esse são muito interessantes dentro dos estudos de teatro contemporâneo. O problema desse caso em particular é que, nesse início de espetáculo, não está clara qual é realmente a grande questão de “Nascituro”: um feto, um trauma, questões de relacionamento amoroso, problemas relativos a preconceito de orientação sexual (são dois homens ou duas mulheres), etc. Com essas dúvidas na cabeça, avança-se para a segunda parte do espetáculo.] 

Na segunda parte de “Nascituros”, há uma revelação. No passado, quando Cris e Francis eram crianças e estavam descobrindo juntos a sexualidade, Cris foi assediado pelo pai de Francis. Mais do que isso, houve a manutenção de um relacionamento pedófilo que permaneceu às escondidas. Durante um certo tempo, Cris se relacionou sexualmente tanto com Francis quanto com seu pai. A história, então, vem à tona. Francis enfrenta o pai em defesa do namorado, mas Cris surpreendentemente defende seu agressor. Cris é expulso de casa e, ao questionar o namorado sobre seu comportamento, ouve dele que preferia o sexo com o pai ao com o filho. E obviamente o namoro termina. 

Dominando os códigos do teatro contemporâneo, não é tão difícil identificar o jogo proposto pela dramaturgia e pela encenação. Mesmo sem trocas de figurino e sem cenário, entende-se que os quatro atores se revezam na viabilização de todos os personagens envolvidos. A percepção, porém, nesse espetáculo, nunca é tranquila, a fruição é muito racional, pois “Nascituros” exige muito e não devolve em igual medida. Suspeita-se de que o trauma anunciado na abertura seja o do assédio sexual que Cris sofreu enquanto vítima do pai de seu amigo. Essa teoria, porém, não é sólida diante da defesa que o agredido empreende em relação ao seu agressor. Fica a pergunta: o trauma diz respeito ao drama de Francis ao descobrir-se filho de um pedófilo e ainda por cima preterido em favor dele? Ou à pedofilia? Os dois traumas são equiparáveis na opinião da de “Nascituros”? 

Na terceira parte da dramaturgia, ganha notoriedade a aventura de Cris como dramaturgo de sua própria história. Dez anos depois do fim do seu namoro, ele é dignosticado como um portador de um transtorno dissociativo. E escrever uma peça com seus dramas é uma recomendação médica em favor de sua cura (?). Francis é contra, não aceita que só um ponto de vista dos fatos se torne público. O diálogo entre eles acontece próximo a uma praça em que um casal homossexual está namorando. Em meio à guerra entre os dois pela posse da verdade, esse casal – que só os personagens veem – é agredido supostamente por homofobia. 

No trecho final, o público de “Nascituros” descobre que toda a narrativa corre o sério risco de ser só uma alucinação de alguém hospitalizado: Francis. Sendo assim, portanto, tudo poderia ter sido real ou não. E, nesse sentido, faleceriam as esperanças de algum prêmio pelo sacrifício de ter tentado entender a peça ao longo de noventa minutos de apresentação. 

Muitos problemas nas interpretações 
Para além da dramaturgia, a montagem tem outros problemas. O grupo formado por trauma, homofobia, pedofilia, conflitos entre pais e filhos, conflitos entre namorados e direitos de narrativa já é tenso, mas isso tudo ainda se inviabiliza por outras explorações. Lá pelas tantas, há a apresentação de um programa sensacionalista em cena, talvez criticando a banalidade da internet. Há também uma peça sobre vacas e bois. E tudo isso surge através de quatro atores essencialmente vestindo preto, em palco liso, dividindo-se sem partitura entre todos os personagens. 

O jogo proposto pela direção de Victor Fontoura é tão exigente quanto o de um adolescente que quer o mundo sem saber exatamente o que fará nele. Ao mesmo tempo que quer ser compreendida, “Nascituros” mantém sua fruição dentro de uma racionalidade pesada através somente da qual poderá ser ouvida. Com isso, a peça impede que a experiência entre no campo do sensorial e do saboroso infelizmente. 

As quatro atuações são ruins. O texto é duro de dizer para John Marcatto, Mariana Bridi e para Marilha Gala, esses visivelmente se esforçando em oferecer às palavras algumas marcas de realidade. Com péssima dicção, Bruno Marques nem esse esforço consegue oferecer. Bridi e Galla, explorando ao exagero o histrionismo, fazem uso de gritos, gestos largos e de tom grandiloquente em momentos descabidos talvez no interesse de dar movimento e sal para o conjunto. Marques descansa na figura de jovem alto, loiro e convencionalmente bonito e consolida nisso seus méritos inexistentes. Marcatto, que escreveu o texto, tira proveito do personagem central, investindo nas dores do trauma que seu personagem viveu com alguns bons momentos. 

A iluminação de Poliana Pinheiro deixa os atores no escuro em vários momentos desnecessária e negtivamente. Sátiro Nunes assina um cenário que inexiste. O figurino de Cristina França tem alguma qualidade dentro do que apresenta, mas crê-se que sofreu pela concepção vinda da direção que não lhe deu melhores chances. A sonoplastia de Marcatto e de Fontoura ajudam a apresentar a peça como uma narrativa jovem, pós-romântica e obscura, mas melhor ainda carismática, o que é ótimo.

As boas intenções 
Não é nada divertido produzir uma crítica tão negativa quanto essa a um grupo jovem que começa a sua trajetória profissional. Essa, porém, é uma carreira séria, que exige não apenas o calor das boas intenções, mas também a frieza da reflexão sobre como organizar a criação. “Nascituros”, como já se disse, se perde no aparente afã de dar positivamente a sua contribuição nas discussões sobre o prenconceito de orientação sexual, porque se envolve em outras questões igualmente meritosas tanto do campo social como do estético. Ao final, nem se sabe se Francis e se Cris eram mesmo um casal homossexual ou se, de fato, eles viveram o que podem ter vivido. 

Fica-se na espera de outros espetáculos do Tríptico Coletivo e no desejo de que essa não tenha sido uma experiência traumática para ninguém. 

*

Ficha Técnica

Texto: John Marcatto | direção Victor Fontoura
Elenco: Bruno Marques | John Marcatto | Mari Bridi | Marilha Galla
Orientação: Ricardo Kosovski | Iluminação: Poliana Pinheiro | Cenário: Sátiro Nunes | Figurino: Cristina França| Arte: Nikko | Mixagem: DJ Scardua | Marketing cultural: Gloria Dinniz| Produção executiva: Ale Riquena |Assessoria de Imprensa: Duetto Comunicação| Realização: Tríptico Coletivo

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Cauby! Cauby! – Uma lembrança (RJ)

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Foto: Dalton Valério

No centro,Diogo Vilela

Diogo Vilela em excelente trabalho


O ótimo “Cauby! Cauby! – Uma lembrança” é o novo musical de Flávio Marinho e de Diogo Vilela sobre o cantor niteroiense Cauby Peixoto (1931-2016). A peça estreeou nesse verão no Teatro Carlos Gomes e recentemente fez excelente temporada no Centro Cultural João Nogueira – Teatro Imperator, no Méier, na zona norte do Rio de Janeiro. Além de Diogo Vilela, que interpreta com sensibilidade o protagonista, o elenco é também formado por Paulo Trajano, Aurora Dias e, em especial, Sabrina Korgut e Sylvia Massari além de outros atores. Com direção musical de Liliane Secco, o espetáculo narra a vida daquele que foi considerado o maior cantor da história da música brasileira. Felizmente, a peça dá privilégio ao aspecto da solidão mais do que aos fatos biográficos. Nesse momento, a produção, que também lindos figurinos de Ronald Teixeira, está fora de cartaz, mas espera-se que retorne tão logo quando possível. 

Ótimo musical faz da vida uma metáfora 
“Cauby! Cauby! – Uma lembrança” é muito mais uma peça sobre a solidão de um cantor que foi famoso do que mais um musical biográfico felizmente. No texto de Flávio Marinho, os fatos principais de sua vida aparecem, mas surgem não tanto para informar o público sobre o que já consta em seu wikipedia. Ao contrário disso, em privilégio, está a construção da imagem de um homem que foi um grande popstar, tido como símbolo sexual de sua geração e considerado o maior cantor entre todos os cantores do Brasil, mas que, nas últimas décadas de sua vida, está completamente só. Em outras palavras, é uma reflexão sobre a tese de que os momentos de glória, de sucesso e de esplendor não são garantias de um futuro tão pleno. Ou seja, é preciso valorizar ao máximo os bons momentos, porque, se eles passarem, ficarão as boas lembranças. 

A dramaturgia começa após a morte do homenageado quando dois jovens estudantes de jornalismo – Alex (Luiz Gofman) e Mara (Ryene Chermon) – procuram Dona Nancy, uma fã de Cauby Peixoto que ganhou notoriedade por sua fidelidade ao ídolo. Foi ela quem acompanhou o cantor nos últimos anos de sua vida, e essa história está contada no documentário “Cauby – Começaria tudo outra vez”, dirigido por Nelson Hoineff, de 2013. Nancy ajuda os jovens com seu trabalho e, a partir disso, os personagens vão surgindo em cena. No entanto, talvez por ela não ser testemunha ocular dos fatos narrados, esses aparecem com vida própria, fugindo de Nancy e investindo no imaginário da plateia que se identifica com a história como se ela fosse sua. 

Como não poderia deixar de ser, o texto é também oportunidade para vários números musicais através dos quais o público mais velho pode se lembrar e o mais jovem pode conhecer canções que fizeram parte da vida de quem estava aqui dos anos 40 aos 60 dos século passado principalmente. Representações de Emilinha Borba, Ângela Maria, Lana Bittencourt, Maysa Matarazzo ganham lugar enquando dezenas de outros nomes nacionais e internacionais são citados. Com habilidade, tudo isso constrói um quadro que terá suas forças testadas ao limite. O mais bonito é reparar que boa parte dos artistas pré-bossa nova, com exceções bem pontuais, não reagiram às transformações, mas prefeririam continuar tocando seus violinos enquanto o Titanic da música romântica afundava. Ouvi-los hoje é entrar em contato com uma sonoridade completamente diferente, mas de inegável enorme valor. 

Assim, a organização dramatúrgica está eficientemente desenvolvida sob um tripé composto de informações biográficas do homenageado, sobre os números musicais, mas há um terceiro, que une os dois: o carisma do personagem (e de seu intérprete). Prende o público a esperança humana de que o protagonista seja feliz de novo ao final. E há que se assistir à peça para saber se ele será. 

A produção atual sucede a de “Cauby! Cauby! - O menino pobre que queria ser príncipe”. Lançada em 2006, a peça tinha também Diogo Vilela interpretando o papel título, trabalho que lhe conferiu o Prêmio Shell de Melhor Ator do ano, e Sylvia Massari. Além deles, integrava o elenco Stella Maria Rodrigues,Arlindo Lopes, Marya Bravo e grande elenco também, como essa, com coreografias de Tânia Nardini, figurinos de Ronald Teixeira e direção musical de Liliane Secco. 

Diogo Vilela brilha como Cauby Peixoto 
A direção de Flávio Marinho e de Diogo Vilela, nessa versão, assistidos por Juliana Medella, impõe o ritmo relativamente ágil dentro do possível em uma dramaturgia memorialista que tem a palavra “lembrança” em seu título. Diferente da versão anterior, o cenário de Ronald Teixeira de Guilherme Reis traz uma enorme quantidade de objetos para ver, o que reduz o palco e consequentemente torna as distâncias mais curtas. A opção traz resultado positivo na articulação das cenas, essas com divisões bem marcadas entre diálogos e números musicais. De modo constante e seguro, o espetáculo atravessa o tempo e ocupa o espaço sem percalços embora sem também, em termos de direção, grandes momentos. 

Como já se disse, os figurinos de Ronald Teixeira, o cenário dele e de Reis e a direção musical de Liliane Secco colaboram bastante bem para os méritos do todo pela alta qualidade de todos os seus empenhos. O guarda-roupa de Cauby Peixoto na peça é feito com o maior cuidado e capricho, sem aproximar o personagem de uma caricatura possível e nem levá-lo a ser descrito como alguém que ele não foi. Essa sensibilidade há que ser destacada elogiosamente. Tânia Nardini, assinando as coreografias, e Maneco Quinderé, assinando o desenho de luz, fazem boas participações, mas sem destaques. 

Do elenco de “Cauby! Cauby! – Uma lembrança”, vale dar atenção aos trabalhos de Paulo Trajano (Di Veras) e o de Sylvia Massari (Dona Nancy). Com ótimos desempenhos, eles trazem vida ao texto, chamando positivamente a atenção e conseguindo oferecer ao todo alguma irregularidade positiva. Sabrina Korgut (Angela Maria) e Aurora Dias (Lana Bittencourt) são as melhores vozes do conjunto e, por isso, também participam bem ao lado de Luiz Menezes, como excelente bailarino. Também integrado por Luiz Gofman, Ryene Chermon e por Rafael de Castro, o elenco desprovido de más interpretações. 

Diogo Vilela está excelente como Cauby Peixoto. Com galhardia, ele toma emprestado a postura, a voz, as respirações, o tom do homenageado para oferecer ao público uma grande interpretação. Esse é, sem dúvida, o melhor trabalho de sua carreira desde 1998, com “O diário de um louco”, de Nikolai Gogol. É uma honra contemplá-lo em tão magnífica atuação. 

Uma saudade 
“Cauby! Cauby! – Uma lembrança” dá uma saudade enorme dos tempos em que fomos felizes, sejam eles quais ou quando foram. Melhor que isso, a peça lança a esperança de que é possível que estejamos justamente vivendo esse período agora e é preciso, por isso, fazer algo que para que, no futuro, se possa ter saudades de hoje. Cauby Peixoto, pelo musical, soube viver a vida em máxima potência. Que tenhamos todos nós também essa sabedoria (e sorte). Aplausos! 

*

Ficha técnica:
de: Flávio Marinho
Direção: Diogo Vilela

Elenco:
Paulo Trajano
Aurora Dias
Luiz Gofman
Luiz Menezes
Ryene Chermon
Rafael de Castro
Sabrina Korgut
Sylvia Massari

Músicos:
Liliane Secco
André Amaral
Fernando Trocado
Charles Rock
Tássio Ramos

Direção de Produção: Marília Milanez
Produção Executiva: Marco Aurélio Monteiro
Assistente de Produção: Letícia Ponzi
Direção Musical: Liliane Secco
Desenho de som: Murilo Corrêa e Cia.
Coreografias: Tânia Nardini
Assistente de Direção: Juliana Medella
Cenário: Ronald Teixeira e Guilherme Reis
Adereços: George Bravo
Iluminação: Maneco Quinderé
Figurinos: Ronald Teixeira
Visagismo: Mona Magalhães