domingo, 18 de fevereiro de 2018

Noite de musicais – 16.02 (RS)

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Foto: divulgação 

Mona Vipere


Com Saraghina, Rebeca Rebu brilha em “Noite de Musicais”

Noite de musicais – 16.02” foi mais uma edição de um bom show de dublagens que faz parte da programação recorrente do bar Workroom. Aberta em abril de 2017, a casa tem uma decoração toda apoiada na popularidade do “RuPaul`s Drag Race”, o famoso reality show norte-americano em que várias drag queens disputam entre si a vitória ao longo das temporadas. Com direção artística assinada por Julha Franz, o evento serve pra entreter o público que frequenta uma das noites da casa. Rebeca Rebu, Mona Vipere e Isa Bennett apresentaram, cada uma, dois números no dia 16 de fevereiro, mas só a primeira teve performance realmente meritosa, embora as duas últimas tiveram sucesso com seu carisma. A deliciosa Workroom fica na Rua Lopo Gonçalves, 364, na Cidade Baixa, em Porto Alegre. 

Mona Vipere, como Alex Owens, também se destacou 
O primeiro número da noite foi de Rebeca Rebu dublando a ótima “Good morning, Baltimore”, música de abertura do musical “Hairspray”, gravada na voz de Nikki Blonsky. Lançado em 2002 na Broadway, o musical conta a história de amor entre uma garota gordinha e o cara mais bonito da escola. Com músicas de Mark Shaiman, letras de Scott Wittman e roteiro de Mark O’Donnell e de Thomas Meehan, a peça foi levada ao cinema com direção de Adam Shankman em 2007. No Brasil, vale lembrar a montagem de 2009 dirigida por Miguel Falabella com Simone Gutierrez no papel principal (tem inteiro no youtube). Rebeca Rebu trouxe, no figurino, algumas referências à protagonista Tracy Turnblad, valorizando a peruca, mas não infelizmente o peso da personagem. O uso de um laquê (em inglês, hairspray) no meio do número foi muito positivo. Com gestos limpos e pronunciando com intensidade todas as palavras da letra, Rebu deu energia à apresentação meritosamente. 

O segundo e melhor quadro da noite também foi interpretado por Rebeca Rebu. Sua versão de Saraghina foi esplêndida. A personagem faz parte do musical “Nine – um musical felliniano”, que estreou na Broadway em 1982 com roteiro de Arthur Kopit e cancões de Maury Yeton, tendo sido indicado a 12 categorias do Tony e levando 5 estatuetas. Em 2009, houve a irrelevante versão de Rob Marshall para cinema e, no Brasil, a peça recebeu uma muito boa versão de Charles Moeller e de Cláudio Botelho em 2015. Myra Ruiz foi quem interpretou Saraghina aqui, brilhando no número “Be italian” (tem no youtube), o mais importante quadro da peça que adapta para musical o filme “8 ½” de Federico Fellini. Rebeca Rebu, com muita segurança, dublou não só a canção como reproduziu excelentemente a célebre coreografia com o pandeiro, que faz a referência ao mundo cigano da personagem. Foi vibrante! 

A noite continuou no terceiro número. Mona Vipere interpretou a boa “Don`t forget me” da fracassadíssima série musical de televisão “Smash”. Composta por Mark Shaiman e por Scott Wittman (a mesma dupla da já referida aqui “Good morning, Baltimore”), a canção apareceu no 15o episódio da primeira temporada, cantada por Katherine McPhee, que interpretava uma atriz dando vida à Marilyn Monroe. Todo o mérito da dublagem de Mona Vipere é do vestido que ela usou na defesa do número: um longo e bem trabalhado gown branco bordado lindamente com pastilhas. Parabéns para o figurinista! 

O pior momento da noite aconteceu no quarto quadro. Isa Bennett interpretou “Spotlight”, utilizando a gravação da série musical de televisão “Glee” na voz de Amber Riley (Mercedes). Originariamente a música não faz parte do universo dos musicais e sua aparição no terceiro episódio da terceira temporada de “Glee” não torna as coisas melhores. Isa Bennett não faz qualquer referência à Mercedes (que, na narrativa, reflete sobre um conselho dado por seu namorado em relação à Rachel Berry) e, assim, perde a oportunidade de manter a proposta do evento. Usando um vestido vermelho, ela - mais preocupada com o cabelo do que com a música - demonstra não saber bem a letra da canção em péssima dublagem. A finalização foi muito ruim também. Foi um número bem dispensável. 

Outro ótimo momento de “Noite de musicais – 16.02” foi a interpretação de “What a felling” por Mona Vipere. Escrita por Giorgio Moroder, Keith Forsey e Irene Cara, a canção aparece na voz de Cara na abertura do filme “Flashdance”, de 1983, dirigido por Adrian Lyne. Em 2008, houve a adaptação para teatro em Londres com Victoria Hamilton-Barritt interpretando Alex Owens, papel que a Jennifer Beals fez no cinema. Vestindo um maiô prateado, uma jaqueta de nylon rosa e uma peruca de cabelos negros crespos, a performer levantou a audiência com muita alegria em uma explosão de gestos e passos. Foi um dos melhores momentos da sessão. 

O último número consistiu na intepretação de “So emotional” por Isa Bennett. A canção, composta por Billy Steinberg e por Tom Kelly, se popularizou na voz de Whitney Houston, gravada em 1987, sem qualquer relação com o universo dos musicais. No 17o episódio da terceira temporada de “Glee”, ela aparece cantada por Lea Michele e Naya Rivera em um número sem muito apelo narrativo. Isa Bennett, vestindo um longo traje completamente negro, explorou positivamente todos os ambientes de Workroom, tentando trazer alguma força para a canção com algum sucesso. Infelizmente, o número não alcançou maiores méritos ainda que tenha servido à intérprete para mostrar à audiência sua habilidade em se movimentar no espaço. 

Falta de concepção 
De um modo geral, “Noite de musicais – 16.02” foi bom, mas infelizmente perdeu ótimas oportunidades para se tornar um ótimo espetáculo. Faltou uma concepção estética melhor amarrada que unisse os seis números em uma só proposta. Com longuíssimos intervalos entre os números, as canções do ínterim também não valorizaram o evento. Ao longo de toda noite, só se ouviram duas canções de musicais além dos números apresentados. Foram elas: “Summer nights”, de “Grease”, e uma de “Rock Horror Picture Show”. Considerando o interesse do público – a casa estava lotada – e o empenho das artistas em apresentar seu melhor, valeria mais apuro em outras edições para que os méritos fiquem ainda maiores. 

*

Ficha técnica:
Direção artística: Julha Franz
Performers: Rebeca Rebu, Mona Vipere e Isa Bennett

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Pequenas violências - silenciosas e cotidianas (RS)

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Foto: divulgação


Janaina Pelizzonm, Rafael Guerra, Cassiano Ranzolin,
Liane Venturella e Rodrigo Mello


O indivíduo e a sociedade: a convivência com o outro

“Pequenas violências - silenciosas e cotidianas” é um dos mais novos espetáculos da Cia. Stravaganza. Escrito por Kike Barbosa, o texto recebeu, em 2011, o Prêmio Ivo Bender de Dramaturgia promovido pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre em parceria com o Instituto Goethe. No final de 2013, foi levada à cena com direção do seu autor e recebeu nove indicações ao Troféu Açorianos de Teatro Gaúcho, levando para casa o prêmio de Melhor Dramaturgia. No mesmo ano, ganhou também os Prêmios Brasken em Cena de Melhor Espetáculo e de Melhor Ator para Cassiano Ranzolin. Todas essas honrarias fazem jus à ótima encenação que tem, no elenco, além de Ranzolin, os atores Rafael Guerra, Rodrigo Mello, Janaina Pelizzonm e Liane Venturella, todos em ótimos trabalhos. Há um destaque positivo ainda para trilha sonora de Paulo Arenhart. A produção, que trata sobre os posicionamentos violentos na particularidade de cada indivíduo, fez três apresentações na última semana do 19o Porto Verão Alegre na sala Álvaro Moreyra.

Dramaturgia premiada
A dramaturgia é constituída como um quebra-cabeça. Diversos personagens anônimos têm suas histórias iluminadas pelo recorte: há um desempregado em busca de uma nova colocação, um senhora negra com um cachorro, uma prostituta, um homossexual, um motorista de ônibus, um pastor evangélico,... Todas essas figuras povoam o universo uma das outras ainda que só de passagem. Não são necessariamente pessoas, mas vozes, sons, cheiros, imagens que lhes atravessam e lhes incomodam. Em “Pequenas violências – silenciosas e cotidianas”, parece interessar um ponto de vista do ecossistema que revela não apenas a fauna, mas o quanto cada um se sente incomodado pela presença do outro. E principalmente o modo como essas individualidades contaminadas vão se organizando em teia através da qual tem a audiência uma visão do conjunto.

Escrito por Fernando Kike Barbosa, o texto se apresenta a partir quase inteiramente de frases soltas, de pequenos solilóquios pelos quais se adentra a mente de cada um dos personagens. Há pouquíssimos diálogos, quase nenhuma fala muito longa. Tudo aparentemente é orquestrado para ser metáfora de uma sociedade compartimentada em que as relações não unem, mas paradoxalmente auxiliam na desunião. Ao leitor, fica em primeiro lugar o desafio de perceber as prováveis conexões entre os microcosmos, e em segundo lugar de notar que algo explosivo está para acontecer a partir desse encontro.

O maior mérito da dramaturgia é reconhecer que ela oferece os instrumentos necessários para a conversa entre a encenação e a audiência. Fica claro o que o espetáculo quer e é interessante entrar no jogo de unir as peças e ver o que vai acontecer. No entanto, talvez a encenação proposta pelo próprio autor do texto não colabore sempre tão bem com a fruição do espetáculo.

Ótimo trabalho de elenco
Em termos da encenação, “Pequenas violências - silenciosas e cotidianas” propõe uma experiência estética rara e, por isso, bastante interessante. Ao longo dos setenta minutos de apresentação, o público fica diante de um espetáculo quase inteiramente às escuras. Em poucos momentos, os atores são vistos de corpo inteiro, mas ainda, sim, em fundo escuro e infinito. Na maior parte da peça, os intérpretes iluminam partes de si próprios com o uso de pequenas lanternas. A opção estética pontua o interesse do quadro em ser metáfora não para seres humanos propriamente ditos, mas para relances superficiais de suas imagens. É isso, talvez exatamente, o que temos das pessoas anônimas com quem cruzamos na rua. Além disso, a escuridão que domina o palco também pode opinar sobre as trevas do interior de cada um em seus posicionamentos mais secretos contra o próximo.

No entanto, as intenções interessantes da proposta, em certa medida, trazem um certo desconforto à audiência. Não se trata apenas de se estar diante de uma peça às escuras, mas também de uma experiência pouco clara. A partir do momento em que se reconhece que há um acontecimento capaz de ligar boa parte dos personagens, parte-se para a descoberta do que isso vai gerar. Só que, no palco, tudo permanece escuro e o espectador, que tateia na dramaturgia em busca do fim, também tateia no espetáculo em busca de como ele vai terminar. Há, no mínimo, três aparentes ápices falsos que alongam a sessão, levando o público a um sufocamento. A sensação acaba por encher a peça de responsabilidade de modo que se cobra do palco mais do que ele tem para oferecer. Sai-se do teatro com a certeza de que se experimentou uma atividade peculiar, mas nem tão incrível quando talvez pudesse ter sido.

Não há destaques no elenco, mas positivamente todos os trabalhos são cheios de ótimos valores. A partir de movimentação com marcas muito reduzidas, o elenco explora bem as entonações por meio das pausas e dos contornos como recursos superexpressivos. Liane Venturella e Rodrigo Mello têm excelente dicção e isso ajuda muito na compreensão do que eles dizem. Rafael Guerra brilha na interpretação do desempregado pelo modo como disponibiliza seu corpo para a desesperança do personagem. Em todos os sentidos, os atores são hábeis em colaborar com a proposta estética do espetáculo, vencendo o desafio de trabalhar na escuridão e com máxima discrição.

Sobre a convivência
“Pequenas violências - silenciosas e cotidianas” se destaca ainda pela excelente trilha sonora de Paulo Arenhart. De toda a sessão, participaram sons que colaboraram na construção do espaço urbano, impessoal, mas vivo da rua. Com habilidade, investiu-se tanto no universo público como no privado, estabelecendo ótimo jogo entre os dois opostos e, mais do que isso, incluindo a peça como espaço de reflexão acerca da convivência humana. Aplausos!

*

Ficha Técnica:
Elenco: Cassiano Ranzolin, Janaina Pelizzonm Liane Venturella, Rafael Guerra e Rodrigo Mello
Figurino: Coca Serpa
Iluminação: O Grupo
Arte Gráfica: Ariel Aguiar
Trilha Sonora: Paulo Arenhart
Direção:Fernando Kike Barbosa
Produção: Cia Stravaganza
Foto: Vilmar Carvalho
Classificação: 14 anos


























sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Lembranças do lado dourado (RS)

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Foto: Filippo Di Santo Junior

Paulo Vicente, Ciça Reckzieguel e Cláudio Benevenga


Na velhice, a poética da monotonia

“Lembranças no lago dourado” foi a última das estreias do 19o Porto Verão Alegre. A peça, com direção de Nora Prado, traz no elenco Paulo Vicente, Claudio Benevenga e Ciça Reckzieguel em dramaturgia escrita pelos quatro componentes do coletivo. No palco, um homem é levado a uma casa de repouso onde passará o resto de sua velhice. Lá, ele se encontra com um amigo de infância e os dois juntos lembram de suas mocidades. Com um ritmo lentíssimo, a narrativa se concentra mais na descrição dos personagens e das situações em que eles se encontram do que propriamente conta uma história. Não fossem as boas atuações, a produção, que fez três apresentações no Teatro do SESC, não venceria a monotonia.

Dramaturgia lenta
Não se trata exatamente de verificar um problema da dramaturgia de “Lembranças no lago dourado”, mas, analisando suas marcas, identificar sua natureza e aí observar os desafios que ela impõe ao espectador. Diante de si, o público não terá aqui uma narrativa tradicional: não há um conflito solucionável e nem um desenvolvimento organizado em causa e efeito que se dirija a um ápice. Ao longo de toda a peça, os vários momentos estão desprovidos de hierarquia e surgem, como num quadro cubista, tal qual partes diferentes de um mesmo plano que, ao final, é visto como bidimensional.

A história começa quando Ramiro (Paulo Vicente), a contragosto, é trazido pela sobrinha ao Lago Dourado Hotel, uma casa de repouso que tem como principal público-alvo pessoas de idade avançada. Lá, ele se encontra com Bernardo (Cláudio Benevenga), um amigo de infância, que o acolhe e passa a apresentar a ele o lugar onde juntos vão conviver no fim dos seus dias. A partir daí, o que se vê ao longo de sessenta minutos são episódios deslocados entre si que nada trazem de novo à solução do contexto inicial. A contribuição de todas as cenas é o oferecimento de novas matizes na descrição tanto de Bernardo quanto de Ramiro.

O calor de uma noite sem ar condicionado, um passeio à orla do rio, as delícias do café da manhã, a descoberta da internet, as novas amizades que surgem a partir das redes sociais são temas dos quadros que surgem na galeria de episódios. Dentre eles, valem citar também as situações em flashback em que Ramiro e Bernardo voltam ao passado. Eles se lembram de uma serenata dedicada a uma menina por quem um dos dois estava apaixonado, das idas ao cinema Cacique e da copa do mundo de 1974. Como todos esses momentos aparecem sem elos de ligação suficientemente fortes entre si, o ritmo da dramaturgia se estende vertiginosamente. Da plateia, têm-se a nítida sensação de que a peça pode acabar em quinze minutos ou pode durar ainda cinco horas.

O efeito é lírico se assim se puder chamar, por exemplo, o romance “Morte em Veneza” (1912), de Thomas Mann, ou a peça “Nossa cidade” (1938), de Thornton Wilder. Há nessas abordagens o privilégio para uma metáfora da passagem do tempo que seja menos desprovida de efeitos e mais natural: cheio de acontecimentos inúteis e de tempos mortos como é na vida fora da narrativa. O desafio que essa versão traz é a monotonia, isto é, o tédio da experiência sem sentido, não teleológica.

Uma última questão sobre a dramaturgia que é preciso ser tratada e, agora sim, negativamente, é a idade dos personagens. Tendo sido eles adolescentes em 1974, eles chegam a 2018 com, no máximo 65 anos. Esse dado faz da narrativa inverossímil, pois todos os outros aspectos apontam para que eles pareçam ter mais ou menos 90 anos e, portanto, foram jovens por volta de 1940. 

Direção imprime um esforço poética que embeleza o trabalho
A direção de Nora Prado visivelmente parece considerar os desafios da dramaturgia e enfrentá-los com coragem e segurança. Em nenhum momento da sessão de estreia, pareceu ter havido algum tipo de embolotamento nas ações que denunciaria algum tipo de autocrítica. Nesse sentido, é possível dizer que a peça “Lembranças no lago dourado” tem de fato interesse em poetizar a passagem do tempo e em exortar para que o público reflita o quanto envelhecer pode ser bom. E isso é muito positivo.

Partindo desse princípio, pode-se observar o quanto a produção atingiu bem seus objetivos. Ao longo da apresentação, os personagens surgem doces em suas idiossincrasias, resolvendo problemas comuns, imersos em suas pequenas realidades cotidianas: a fome, o sono, o desejo, o sonho... Tudo isso é muito humano e essa simplicidade tácita é a massa com que a estrutura espetacular constrói sua beleza interior.

A opção por compor o cenário por diversas cadeiras diferentes, numa provável alusão à peça “As cadeiras”, de Eugène Ionesco, tem seus efeitos positivos e negativos. É interessante a referência se ela nos trouxer a imagem das ausências: as pessoas que partiram, aqueles amigos que sumiram, a solidão da velhice. No entanto, em “Lembranças do lago dourado”, talvez não seja essa a imagem mais nítida. O palco fica ocupado por um grupo de móveis meio soltos e sobre os quais nenhum desenho de iluminação mais onírico traga alguma beleza. O todo está disforme e sem vida na concepção cenográfica de Fiapo Barth. A luz de Anilton Souza e de Maurício Moura perde várias chances de ser mais que simples iluminação.

A trilha sonora de Everton Rodrigues e o figurino de Rosângela Cortinhas colaboram com o elenco e com a dramaturgia nos méritos do espetáculo dentro da proposta. Há um reforço em uma estética mais romântica, própria da idealização, que é cara para o conjunto. Deve se por em destaque positivo o figurino que Ciça Reckzieguel usa quando interpreta, ao mesmo tempo, as namoradas Celeste e Cleide.

Bom conjunto de interpretações
Ciça Reckzieguel, Paulo Vicente e Claudio Benevenga apresentam bons trabalhos de interpretação, buscando compor personagens mais doces e carismáticos, sendo essas aparências medidas para vencer a falta de contorno das figuras. Em ninguém, há qualquer contorno, isto é, ao longo da peça, todos os personagens saem exatamente como entraram. De maneira superficial, poder-se-ia dizer que, no Ramiro de Paulo Vicente, há alguma transformação uma vez que ele entra mal-humorado. No entanto, não há de se estar segura o suficiente a análise para se dizer que, ao fim da peça, ele já está bem.

É visível o compromisso dos três intérpretes em oferecer um resultado de enorme qualidade. Tudo o que é dito está bem compreensível, há brincadeira, há gestos bem claros e intenções precisas. Em todas as cenas, se vê uma disponibilidade bastante louvável do elenco em construir um quadro potente dentro do possível que a proposta garante.

“Lembranças do lago dourado” é a primeira peça dirigida pela atriz Nora Prado, que volta ao Rio Grande do Sul depois de morar 25 anos em São Paulo. Que ela se sinta bem vinda à sua terra natal e que continue devolvendo ao seu público trabalhos positivos como esse.

*

Ficha Ténica:
Paulo Vicente: Ramiro
Cláudio Benevenga: Bernardo
Ciça Reckzieguel: Madrinha, Thelma, Juliana, Neuza, Lúcia, Gerente, Maria Antonieta
Direção: Nora Prado
Texto: Nora Prado, Cláudio Benevenga, Ciça Reckzieguel e Paulo Vicente
Trilha Sonora: Everton Rodrigues
Produção: O Grupo
Cenário: Fiapo Barth
Figurinos: Rosângela Cortinhas
Iluminação: Anilton Souza e Maurício Moura
Fotos: Nora Prado
Duração: 60 min
Classificação: 14 anos

sábado, 3 de fevereiro de 2018

A mecânica do amor (RJ)

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Foto: Jéssica Barbosa

Fabrizio Gorziza e Lucas Sampaio


A comédia que não deu certo

“A mecânica do amor” tem dois personagens muito interessantes, mas uma dramaturgia mal construída. Escrita por Julio Conte em 1997, ela foi encenada pela primeira vez em 2016 e está de novo em cartaz no 19o Porto Verão Alegre com direção do próprio Conte e com Fabrizio Gorziza e Lucas Sampaio no elenco. Na narrativa, dois mecânicos conversam sobre mulheres enquanto consertam um carro quando surgem dois altos lobistas políticos e tentam enredá-los em uma trama de corrupção. A produção faz hoje mais uma apresentação no teatro do Centro Histórico-Cultural Santa Casa, no centro da capital gaúcha.

Más atuações em trecho confuso
A peça começa bem, mas trilha caminhos muito adversos ao longo da dramaturgia. Na história, Jambolão (Lucas Sampaio) e Caneta (Fabrizio Gorziza) são dois mecânicos de um lugar muito afastado dos grandes centros urbanos. Em sua doce simplicidade, eles revelam seus sonhos e frustrações com as mulheres de um jeito bastante tocante enquanto deixam ver suas existências toscas e até relativamente ingênuas. Como conquistar as mulheres, como conviver com o mundo delas, como se manter em um relacionamento e o que fazer com seus próprios interesses são algumas das questões que aparecem de maneira até bem engraçada em alguns momentos. 

O problema do texto de Julio Conte aparece quando surgem dois outros personagens que nada têm a ver com o contexto inicial da proposta. Rick (Gorziza) foi colega de colégio de Jambolão e, depois de ter-lhe feito muito mal, vem para compensar o estrago. No entanto, ele é seguido por Anselmo (Sampaio), um lobista político, que vem lhe cobrar sua participação em mais um esquema de corrupção. “A mecânica do amor”, de uma comédia de costumes sem grandes pretensões, de repente, vira um drama complexo que se organiza a partir de vários engendramentos ficcionais com fortes relações ao panorama político brasileiro em tempos de Lava Jato.

O contexto da narrativa fica ainda pior quando a dramaturgia ganha ares de experimentação. Em primeiro lugar, Conte parece sentir que é preciso envolver o metateatro na solução do problema de dois atores interpretarem quatro personagens. A troca de roupa de um deles acontece em cena, fazendo alusão à presença do público e a como esse vai compreender a proposta. Em segundo lugar, com o auxílio da luz, há um jogo em que os dois intérpretes dão vida aos quatro personagens ao mesmo tempo em uma conversa. E só a voz é usada para caracterizar as figuras. Nesse momento, fica bastante difícil compreender o que está acontecendo e valem algumas reflexões sobre essa avaliação. 

De início, pode-se considerar a apresentação e a manutenção do acordo narrativo entre o texto e o leitor. “A mecânica do amor” apresenta-se muito bem através de uma cena longa e bem concebida a partir de vários signos como cenário, figurino, composição de personagens, etc. Tudo isso, porém, parece ser jogado fora quando há a virada. O que passa a acontecer depois da chegada de Rick e de Anselmo não tem nada a ver com o bate-papo de Jambolão e Caneta. O corte é brusco e entra de maneira desigual na estruturação do todo. Se o lado de lá era uma comédia boba com peso nos personagens, aqui há um drama difícil que exige da audiência muita atenção. Sem saber o que é para ser feito com o que se tinha, o público fica, diante do novo, com resistências bastante plausíveis.

E há também uma questão em que a dramaturgia sofre com a direção e com as interpretações. Se Lucas Sampaio e Fabrizio Gorziza têm boas atuações no primeiro quadro, no segundo, acontece o exato oposto. Metade das frases não se ouvem e, do que é minimamente audível, chega à plateia com muitos problemas de dicção. O registro vocal utilizado em Rick e em Anselmo é péssimo, comprometendo ainda mais os méritos da obra.

Com alívio, no trecho final da peça, “A mecânica do amor” retorna às deliciosas figuras de Caneta e Jambolão e, em termos estéticos, tudo acaba bem. No entanto, fica o desprazer de uma peça que foi bem menos o que podia ter sido infelizmente.

A experimentação baseada na confiança
O cenário de Kiko Angelim, os figurinos de Thaís Parttichelli e a luz de Fabiana Santos se esforçam em positivamente oferecer bons valores à produção. Há que se destacar a beleza do conjunto de detalhes que são vistos em cena no palco na construção do todo. De igual modo, no que se refere a Caneta e a Jambolão, tem-se, em “A mecânica do amor”, bons méritos na defesa de figuras carismáticas e que, pela colaboração dos atores Fabrizio Gorziza e Lucas Sampaio, surgem oferecendo ótimo ritmo.

Nem de longe essa é uma das melhores peças de Julio Conte, mas elogia-se o interesse do consagrado encenador em experimentar linguagens acreditando na confiança de seu público fiel e dedicado. Que esse frescor nunca lhe abandone.

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Ficha Ténica:
Texto e direção: Júlio Conte
Elenco: Fabrizio Gorziza e Lucas Sampaio
Iluminação: Fabiana Santos
Cenário: Kiko Angelim
Figurinos: Thaís Partichelli
Produção: Luísa Barros e Thaís Pinheiro
Foto: Jéssica Barbosa

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Latidos (RS)

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Foto: Diogo Vaz

Catharina Conte e Nora Prado


O áureo início de 2018 no teatro gaúcho

É muito provável que “Latidos” seja a melhor peça de Julio Conte desde “Balei na curva”. A produção, que estreou nessa semana no 19o Porto Verão Alegre, integra de maneira gloriosa a abertura do ano de 2018 no teatro gaúcho. No texto, encontram-se o amadurecimento de seu autor como célebre dramaturgo e diretor do mais importante espetáculo teatral do sul do Brasil e também a experiência dele como psicanalista renomado. Nora Prado e Catharina Conte interpretam Virgínia e Valentina, mãe e filha, alguns dias depois do falecimento do homem que foi marido da primeira e pai da segunda. O acontecimento é uma oportunidade para elas de ressignificarem toda a relação que lhes sobra, o que na narrativa é convite para o público de refletir sobre suas próprias relações. Eis dois belíssimos trabalhos de atuação que, entre outros méritos, fazem dessa proposta uma obra imperdível.


Excelente dramaturgia
A peça inteira é estruturada em uma única cena cujos diálogos acontecem no palco usando a mesma passagem do tempo de fora dele. Isto é, não há elipses, flashbacks e nem apartes no tempo ficcional, embora a narrativa se passe em um café da manhã e a encenação se dê à noite. O cenário é uma faustosa mesa posta para um desjejum de luxo, em que se expressa que as personagens são membros da classe alta da sociedade. No cenário, não há saídas, não se usa a coxia, não há intervalos e nem respiros. “Latidos” começa depois de um pequeno prólogo em que Nora fala ao telefone com a empregada porque não encontra guardanapos de linho que ela queria para deixar a ocasião mais especial. Quando Valentina entra e reprova todo o espetáculo feito pela mãe, o público entende que o conflito já começou.

De um lado, há Virgínia, vestida para o trabalho, mas interessada em fazer com que a filha coma alguma coisa, começando a superar o luto pela morte do pai de modo mais digno. De outro, há Valentina, de cabelos desgrenhados e disposta a recusar qualquer oferta de aproximação da mãe, que praticamente teria abandonado o marido convalescente. O aspecto frívolo da burguesa Virgínia faz dela uma vilã inicial, mais preocupada com as aparências e pouco dada ao que realmente importa na vida. No entanto, o comportamento de Valentina revela um enorme descontrole emocional, deixando ver uma certa inabilidade da jovem de reconhecer os desafios da vida prática. Assim, no texto de Julio Conte, o duelo strindberguiano se inicia. Há um ringue com dois lutadores de peso e eles só poderão sair da partida quando houver um vencedor: é tudo ao vivo, a cores, sem mágica e nem efeitos especiais. Um realismo naturalismo no seu auge mais pleno.

Com excelente fluência tanto na articulação das imagens simbólicas que as palavras promovem como também das próprias palavras e do modo como elas se organizam em frases nas peles das personagens, o texto convida para o mergulho. Acompanha-se o ponto de vista da filha e depois do da mãe sobre a morte do pai e do marido, sobre a vida delas com ele, sobre suas perspectivas sobre a mulher na sociedade contemporânea. Repleta de golpes, a narrativa se organiza com vistas a manter a atenção fisgada e o interesse pleno em uma evolução constante de atmosferas diversas e climas variados. Enquanto assiste, a audiência define o seu lado, organiza sua torcida, avalia seu lutador e pode mudar de preferência. Todos esses adjetivos são marcas do quanto o texto é bem escrito.

“Latidos”, na dramaturgia brasileira contemporânea, está ao lado dos elogiados “Silêncio”, “Os sapos”, “Galápagos” e “War”, de Renata Mizrahi; “Boa noite, professor”, de Lionel Fischer e de Julia Stockler; e “A tropa”, de Gustavo Pinheiro. Em todos esses, se vê o interior do humano servindo como espaço onde o externo se resolve ou é extirpado: entranhas pra fora, fantasmas à solta, a busca pessoal e particular pela luz, ainda que essa não signifique necessariamente perdão e muito menos redenção.

Ao final, quando a própria luta se vê adversária de si mesma, Virgínia e Valentina oferecem suas últimas cartadas e o júri poderá se reunir e decretar a vitória. A virgem ou a valente? Aquela que não se deixou tocar pela corrupção ou aquela que a enfrentou cara a cara? Em volta de ambas, o mundo suspenso continua a correr e o futuro já se aproxima. O realismo naturalismo segundo o qual somos todos animais desprovidos de moral diante do levante dos desejos da carne faz ouvir os latidos de cães. Cães latem quando querem ou precisam de atenção, mas também quando estão com medo. “Latidos” é excelente!

Duas memoráveis interpretações: Nora Prado e Catharina Conte
A direção de Julio Conte, assistido por Fernanda Moreno, faz a encenação brilhar a partir dos méritos já trazidos pelo texto. Embora “Latidos” não tenha cenas, sua evolução espetacular bem pode ser analisada a partir de quadros. As duas personagens apresentam, cada uma, duas versões de si mesmas, o que oferece à peça, pelo menos, quatro opções. Virgínia se defende a partir de uma fleumática composição cheia de gestos, entonações e ironias, como que se apoiando em uma versão de si capaz de agredir sem sofrer, própria para a luta sem dor. Há, no entanto, também, uma outra Virgínia mais dócil, mais cansada, mais íntima que surge como mais um argumento seu após os outros terem falido. Valentina, por seu turno, tem sua versão enlouquecida - agressiva, descontrolada, feroz -, mas também outra: intensa, corajosa, atenciosa e humana. As múltiplas misturas entre essas versões surgem na estrutura de cada entrecho, produzindo um panorama rico e variado de possibilidades.

Em “Latidos”, o público fica sentado no entorno da grande mesa de café da manhã. Essa disposição do espaço ratifica o compromisso da obra de se organizar como em um ringue, mas, mais que isso, oferece à audiência um meio de fruir o espetáculo da perspectiva de dentro. Virgínia e Valentina não são seres distantes do público, mas metáforas dele e de suas complexidades. A proximidade garante a participação em uma abordagem que celebra a natureza dos personagens mais do que o recorte narrativo de que elas são vítimas. Em outras palavras, a peça defende que, se o que temos do outro é apenas uma parte, o mundo tem também apenas uma parte de nós e é contra isso que devemos lutar. Eis uma direção firme e eficaz que concebe o quadro, mas também o viabiliza a partir de termos práticos e concretos.

Nora Prado (Virgínia) e Catharina Conte (Valentina) brilham em cena através de belíssimas atuações. Em ambas, se veem excelentes mobilizações do corpo e das expressões em prol da construção de figuras complexas. Há que se elogiar a movimentação pelo espaço e pelo tempo na condução de ritmos e de formas que chegam à estreia como se já positivamente fosse um espetáculo maduro. Isso faz crer acerca dos benefícios de um processo competente de preparação que valoriza o público e saúda o bom gosto da audiência, a seriedade do feito e o compromisso com a qualidade. Sem dúvida, tem-se aqui interpretações memoráveis que já antecipam aos olhos mais atentos o reconhecimento que hão de colher na carreira longa que a produção há de ter nos palcos brasileiros.

Excelente espetáculo!
Para além do texto, da direção e das interpretações, é preciso que se destaque o modo vibrante com que a luz de Fabiana Santos, o figurino de Fenanda Bastos Vieira, a sonoplastia de Kevin Brezolin e o cenário de Juliana Beltromi colaboram com o mérito geral do trabalho. Em todos esses aspectos, veem-se facilmente o extremo cuidado com cada detalhe, a preocupação com as consequências estéticas de todas as inserções e o compromisso na participação da parte no todo. Com certeza, a fluência semântica com que o espetáculo se desenvolve tem nesses aspectos suas justificativas mais essenciais.

Junto de “Pequeno trabalho para velhos palhaços”, dirigido por Adriane Mottola a partir de texto de Matei Visnièc, “Latidos” abre a temporada teatral gaúcha de 2018 com muitos elogios. Considerando os tempos negros que vivemos na produção artística brasileira em função da crescente redução de políticas públicas que favoreçam a arte, trata-se aqui de uma exceção vitoriosa de furo de bloqueio. É preciso aplaudir, é fácil valorizar, é essencial manter. Parabéns!

*

Ficha técnica:
Texto e Direção: Júlio Conte
Elenco: Nora Prado e Catharina Conte
Assistência de Direção: Fernanda Moreno
Foto: Diogo Vaz
Iluminação: Fabiana Santos
Sonoplastia e Projeções: Kevin Brezolin
Produção Executiva, Assessoria de Imprensa e Social Media: Gustavo Saul
Coordenação de Produção: Patsy Cecato
Figurinos: Fernanda Bastos Vieira
Cenografia: Juliana Beltrami
Realização: Complexo Criativo Cômica Cultural
Apoio: Pâtissier - Marcelo Gonçalves, Juliana Beltrami Eventi, Mobel e Dancing Days
Duração: 60 min

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Língua mãe – Mameloschn

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Foto: Adriana Marchiori

Mirna Spritzer

Glória nos 40 anos de carreira de Mirna Spritzer

“Língua mãe – Mameloschn” é a peça que ganhou o troféu Açorianos de Melhor Espetáculo de 2015 do teatro gaúcho. Dirigida com muita firmeza por Mirah Laline, a partir do texto original da russa-germânica Mariana Salzmann, a ótima montagem narra os conflitos de três mulheres de gerações diferentes na mesma família: a avó, a mãe e a filha. Judias, moradoras da antiga Alemanha Oriental, o relacionamento entre elas vai à convulsão quando a mais jovem decide ir embora para os Estados Unidos. No elenco, Valquíria Cardoso e Ida Celina apresentam trabalhos bastante positivos de interpretação, mas é Mirna Spritzer quem brilha absoluta. Comemorando seus 40 anos de carreira como atriz, ela recebeu o Prêmio Braskem Em Cena de 2015 por sua participação nesse espetáculo. A montagem conta ainda com a interpretação da trilha sonora original ao vivo por Philipe Philippsen. A produção abrilhantou a programação teatral do 19o Festival Porto Verão Alegre.

Dramaturgia excelente
Escrito e lançado em 2013, em Berlim, o texto “Muttersprache- Mameloschn” reflete sobre as relações de influência entre família e indivíduos na construção da identidade. Ao longo de toda a peça, a jovem Raquel (Valquíria Cardoso) se esforça em recusar a colaboração de sua mãe Clara (Mirna Spritzer) na condução de sua vida. Por outro lado, Clara repele as tentativas de sua mãe Lin (Ida Celina) de se aproximar tanto dela como da neta. Nesse contexto, as três sofrem suas próprias presenças e, não menos, suas ausências no passado das demais.

A personagem Lin foi inspirada na vida da cantora holandesa Lin Jaldati (1912-1988). Ela é mundialmente conhecida por ter sido uma das últimas pessoas que viu a jovem escritora Anne Frank (1929-1945) viva quando ambas eram prisioneiras no Campo de Concentração em Bergen-Belsen. No entanto, sua fama primeira se deu por ter se tornado, depois do holocausto, uma renomada cantora de música iídiche entre anos 50 e 70, se apresentando em diversos países do bloco comunista. “Língua mãe – Mameloschn”, porém, não é uma peça biográfica e, sobre ela, vale dizer que a referência da criação da personagem Lin é só uma ilustração que colabora no debate sobre pertencimento. 

Se se considerar o genocídio cultural e humano empreendido pela ultra direita alemã (leia-se nazistas) contra os judeus (e contra outros povos também) ao longo do Terceiro Reich, pode-se entender a importância da preservação dos hábitos, costumes e dos valores para o povo descendente de Abraão. Assim, para as três personagens da peça, o que as une ou as separa de um país, de uma nação, de uma religião, partido político, movimento social ou de causa são tipos de laços diferentes. Raquel quer aprender mais sobre judaísmo e Clara, por seu turno, reclama das ausências de sua mãe em sua vida. Lin, que não tem para aonde ir, ressente-se por ter sido admirada pelo mundo, mas não por sua própria prole. Todas sentem falta de Davi – não apenas o célebre Rei de Israel que unificou as doze tribos judaicas, mas - , o irmão gêmeo de Raquel que, há um tempo, foi morar em uma comunidade rural e, desde então, não dá notícias. Todas sentem falta umas das outras na medida em que as repelem entre si. 

O texto “Língua mãe – Mameloschn” toca o público por se utilizar da família para tratar das redes que se estabelecem entre as pessoas e das consequências dessas interações. Como em um espelho, as duas expressões do título significam a mesma coisa em línguas diferentes, o que revela o interesse dessa bela dramaturgia em falar de cultura, de diálogo e de transformação. Eis uma bela história!

O brilho de Mirna Spritzer
A direção de Mirah Laline, assistida por Júlia Ludwig, utiliza o palco aberto para talvez paradoxalmente expressar as barreiras existentes entre as personagens. Vistas integralmente ao longo de toda a encenação, as figuras fazem de suas presenças um meio de sustentar a tensão. O íntimo e o privado são constantemente rasgados pelo familiar e o notório em um jogo que acaba misturando as três mulheres de gerações diferentes em um amálgama que preserva suas individualidades. Em ótimo ritmo e produzindo quadros de extrema beleza, o feito garante os melhores méritos do espetáculo.

Valquíria Cardoso faz de sua Raquel o furacão que incendeia a vida de sua mãe e de sua avó. Por meio de uma interpretação quase agressiva, a atriz oferece à personagem meios dela cumprir bem a tarefa de espantar a poeira de sua casa ancestral e movimentar a narrativa. Ida Celina, com humor, graça e carisma deixa sua Lin representar o passado sem que esse pareça velho e chato. O modo como a intérprete usa os tempos é uma aula de teatro!

Mirna Spritzer brilha em “Língua mãe – Mameloschn”. Por vezes posicionando-se narrativamente entre sua mãe e sua filha, a personagem Clara ganha, com a intérprete, uma fulgurante carga emotiva prestes a explodir. Com gestos muito sutis, delicados movimentos de olho e expressões marcadas com sinais bastante claros, Spritzer convida a audiência para vê-la ao longo de toda a apresentação. E retribui a atenção, devolvendo uma belíssima cena de desabafo capaz de emocionar.

Mirna Sprizer como Rosalinda em
"A maldição do Vale Negro"
Em 2017, Mirna completou 40 anos desde de sua estreia como atriz no espetáculo “Um edifício chamado 200”, espetáculo dirigido por João Pedro Gil com dramaturgia de Paulo Pontes. De lá para cá, valem citar suas participações em “A maldição do Vale Negro”, de 1986, com direção de Luiz Arthur Nunes para o texto de Caio Fernando Abreu; e “Mahagonny”, de 1988, com direção de Irene Brietzke a partir da obra de Bertolt Brecht e Kurt Weill. Por suas participações nessas montagens do grupo Teatro Vivo, ela recebeu respectivamente os Troféus Açorianos de Melhor Atriz Coadjuvante (dividindo com Ida Celina, que também estava no elenco de “A maldição do Vale Negro) e de Melhor Atriz. Como professora no Departamento de Arte Dramática da UFRGS desde 1986, desenvolve lá intenso trabalho como pesquisadora, tendo protagonizado durante muitos anos a reflexão sobre o ator, a voz e a linguagem radiofônica, sem nunca ter se afastado por muito tempo dos palcos. Seu aniversário de vida profissional é motivo de muita alegria para todos os amantes das artes.

Potente participação da trilha sonora de Philipe Philippsen
Dentre os demais elementos estéticos, destaca-se a trilha sonora original composta e interpretada ao vivo por Philipe Philippsen. A musicalidade facilmente associada às canções folclóricas judaicas bem enleva a narrativa, dando-lhe respiros poéticos bastante qualificados. Em alguns momentos, porém, o volume muito alto concorre com a voz das atrizes, prejudicando a compreensão do que as personagens dizem. Philippsen, na encenação, atua como David, o filho ausente de Clara. Ele é o destinatário de várias cartas que a ele são escritas. Sua presença física neutra no palco garante a tensão de sua ausência na ficção, um outro mérito bastante especial da direção de Laline nesse espetáculo.

As contribuições modestas do figurino de Rô Cortinhas, da luz de Ricardo Vivian e do cenário de Rodrigo Shalako colaboram para a fluência do ritmo, permitindo ao espetáculo correr mais livre por meio do texto, da música e das interpretações.

Por todos os seus méritos, “Língua mãe – Mameloschn” merece novas pautas na capital gaúcha e no país. Vida longa! Aplausos.

*

FICHA TÉCNICA
Texto: Mariana Salzmann
Tradução: Camilo Schaden, Carla Bessa, Fabiana Macchi, Herta Elbern, Luciana Waquil e Marcos Tulius Franco Moraes
Direção: Mirah Laline
Elenco: Ida Celina, Mirna Spritzer, Valquíria Cardoso e Philipe Philippsen
Iluminação: Ricardo Vivian
Trilha musical original: Philipe Philippsen
Cenário: Rodrigo Shalako
Figurinos: Rô Cortinhas
Assistência de Direção: Júlia Ludwig
Assessoria de Imprensa: Bruna Paulin – Assessoria de flor em flor
Produção: Rodrigo Ruiz
Realização ATO Cia. Cênica

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Borboletas de sol de asas magoadas (RS)

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Foto: divulgação

Evelyn Ligocki

Ótimo monólogo sobre o universo trans completa 15 anos de sucesso em Porto Alegre


O belíssimo monólogo “Borboletas de sol de asas magoadas” completou 15 anos de sucesso. A peça é o mais antigo espetáculo teatral em cartaz no país com a temática da visibilidade trans. Idealizado, concebido e realizado por Evelyn Ligocki desde 2002, o projeto permanece vivo felizmente sem ter sucumbido no país que é líder no mundo em assassinatos de transexuais. Vale a pena ver e rever a bela montagem em oportunidades como a que lhe ofereceu o 19o Porto Verão Alegre.

O encontro com Betty
Em “Borboletas de sol de asas magoadas”, há um investimento da dramaturgia no aspecto íntimo e particular das travestis. Ao longo da peça, o público está sendo recebido por Betty em sua casa, como se estivesse lá para entrevistá-la e para conhecer o seu dia a dia. Então, o mundo que se vê é aquele visto pela protagonista em sua individualidade. O resultado é a criação de uma relação próxima entre o personagem e a audiência, o que humaniza o debate surgido naturalmente ao longo dos sessenta minutos de apresentação.

Para além da força da questão política e social dos transexuais, “Borboletas” tem o mérito de chegar ao ponto do humano. De início, o público está diante de uma travesti falante, contadora de causos, que impõe a sua cultura, os seus valores, o seu jeito e parece se orgulhar de ser protagonista em um mundo notoriamente diverso do de sua plateia. Ela explica sobre como se veste, como se maquia, conta sobre o que faz quando está em casa sozinha, sobre o contato com suas amigas e descreve expressões idiomáticas usadas nas conversas entre seus pares. No entanto, é muito bonito reparar como o texto vai para outros lugares além desse mais superficial.

O fim da peça, depois de um acontecimento marcante em sua dramaturgia, o público está diante de uma Betty diferente. Ou melhor, está-se de modo diferente diante da mesma Betty. Quem assistir ao espetáculo reconhecerá um trecho em que vida humana da protagonista corre risco. A representação desse momento é o que modifica o olhar da audiência a respeito da personagem. E é aí que a humanidade da plateia se encontra com a humanidade da anfitriã. O encontro celebra a mudança de uma perspectiva: Betty não é um ser mais diferente do que todos os diferentes com os quais nós nos encontramos. Ela é só um outro ser com sonhos, desejos, frustrações e planos similares aos de qualquer outra pessoa.

O espetáculo foi desenvolvido como projeto de conclusão do curso de graduação em Interpretação Teatral no Departamento de Artes Dramáticas da UFRGS em 2002. E estreou conferindo à Evelyn Ligocki o troféu de Atriz Revelação no Prêmio Açorianos de Teatro Gaúcho. Esse se trata da mais alta honraria do Rio Grande do Sul aos atores. Em 2006, em São Paulo, Ligocki foi indicado ao Prêmio Qualidade Brasil na categoria de Melhor Atriz por sua interpretação de Betty.

Atualmente, “Borboletas de sol de asas magoadas” está junto de outras produções que também tratam sobre o universo trans. Vale citar produções de destaque nacionais como “BR-Trans”, dirigido por Jezebel de Carli e com Silvero Pereira no elenco; “Rio Diversidade”, idealizado por Márcia Zanelatto; e “Gisberta”, com direção de Renato Carrera e interpretação de Luis Lobianco. Todas essas e outras produções dão sua colaboração para a mudança das terríveis estatísticas às quais nosso país está envolvido em relação ao assassinato de transexuais. A partir de dados da respeitável Trangender Europe, que mapeia a situação no mundo, o Brasil é o pais em que há mais crimes motivados por homofobia no planeta. Em 2017, 171 transexuais foram assassinados aqui (no México, foram 56; nos Estados Unidos, 25; no mundo, 325). É um dado alarmante e triste que se espera modificar.

Excelente ritmo
Do ponto de vista de sua encenação, o espetáculo é ótimo. Ligocki rapidamente conquista a plateia com seu enorme carisma. Usando os tempos de maneira excelente, ela conduz a narrativa explorando diversos tipos de temporalidade: de trechos mais informativos, a situações mais líricas, da comédia ao drama, de uma movimentação silenciosa a quadros mais expressivos. A peça termina deixando um positivo desejo por mais, o que demonstra o excelente ritmo da montagem cuja colaboração artística é assinada por Celina Alcântara.

São excelentes as participações dos demais elementos estéticos da peça. O figurino se transforma de maneira simples mas incrível, sendo ele próprio conteúdo e metáfora para o que está tratando. A peruca loira de má qualidade, a maquiagem exagerada, os acessórios visivelmente baratos demonstram um empenho da produção em fazer ver que capricho não tem nada a ver com posses. Valoriza-se, nesse sentido, a sede de Betty pelo bonito e pelo sofisticado ainda que haja em suas vidas muita dificuldade financeira. O cenário age no mesmo sentido, reforçando a feminilidade e a ingenuidade não como oposições à força ou à esperteza, mas como marcas conjuntas que atuam em universo complexo.

Através da trilha sonora, vê-se romantismo, mas também uma certa vocação à felicidade. Em alguns momentos, quando a rua invade a casa de Betty, a sonoplastia projeta o mundo em seu redor. O desenho de luz, em auxílio a isso, cria espaços diferentes sobre o palco, contribuindo para a evolução do drama. Por tudo, também se observam os méritos da peça. No entanto, é na atuação de Evelyn Ligocki que está o ponto alto da produção.

Brava Evelyn Ligocki
Evelyn Ligocki faz Betty brilhar. Em primeiro lugar, há um excelente casamento entre corpo, expressões faciais e uso da voz. A personagem, que é brutalmente diferente da atriz, surge explorada por um enorme universo de detalhes, expondo, de um lado, o fulgurante repertório expressivo de Ligocki, e de outro, plena disposição dela em fazer da personagem um campo onde o encontro entre o público e a temática pode se dar. Além disso, destaca-se o modo excelente como a intérprete domina o tempo, as marcas e narrativa ainda mantendo o frescor no mónologo que se apresenta há tanto tempo. Se em outras produções longevas é comum sentir o mofo do cansaço, não é o que se vê aqui felizmente. Mas do que tudo há a defesa da encenadora no seu empreendimento estético. Evelyn acompanha todos os processos ligados à peça: da produção à realização, da criação à viabilização. Trata-se de um grande trabalho.

“Borboletas de sol de asas magoadas” é uma montagem brasileira necessária sócia e esteticamente. Vale a pena assistir e aplaudir muitas vezes. Brava!

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Ficha técnica:
Texto, direção e atuação: Evelyn Ligocki
Colaboração artística: Celina Alcântara