quinta-feira, 8 de março de 2018

Pequeno trabalho para velhos palhaços (RS)

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Foto: Julio Appel

Arlete Cunha, Sandra Dani e Zé Adão Barbosa

Ótimo Matéi pelo ouro do teatro gaúcho

“Pequeno trabalho para velhos palhaços” é um poema do dramaturgo romeno Matéi Visniéc que a Companhia Estúdio Stravaganza oferece ao público gaúcho nesse verão de 2018. Com a peça escrita em 1986, o grupo celebra os quarenta anos de carreira do escritor que começou a contar suas histórias ao mundo em 1977. Em “Old clown wanted”, três velhos e esquecidos palhaços se reencontram na sala de espera para uma audição através da qual só um deles poderá ganhar um novo trabalho. A amizade fica de lado na luta pela sobrevivência em mundo tão inóspito. Dirigidos por Adriane Mottola, Arlete Cunha, Sandra Dani e Zé Adão Barbosa têm excelentes atuações em espetáculo muito bonito em todos os aspectos: do figurino de Daniel Lion, da luz de Ricardo Vivian, do cenário de Zoé Degani e da trilha sonora de Álvaro RosaCosta. Vale a pena correr parar assistir à montagem que fica em cartaz até o dia 18 de março no Teatro Renascença. 

Qual o lugar da velhice no mundo contemporâneo? 
O texto de “Old clown wanted” se dá a ver aos poucos, contando com a boa vontade do público em acreditar que haverá um momento em que tudo fará sentido. Na plateia, há um encontro da obra com uma massa de leitores vinda de fora, mas com os pés firmes na contemporaneidade nesses 31 anos desde que a peça foi escrita. No palco, estão três velhos palhaços, trazendo seus registros de um antigo mundo imaginário bem menos veloz, com exigências bastante limitadas e com aquela pureza que o cineasta italiano Federico Fellini (e muitos outros) pintou a velha tradição do circo. O primeiro embate, então, é assim constituído: qual é o lugar dos velhos nesse mundo atual? 

A peça começa com a entrada de Niccolo (Arlete Cunha), ansioso por sentar-se e, assim descansado, preparar-se para uma entrevista de emprego. Então, ele é surpreendido pela chegada de outro concorrente e, mais surpreso ainda ele fica quando descobre que se trata de Filippo (Sandra Dani), seu velho amigo e companheiro de tantos picadeiros. Desde o início, para o leitor, ficam claras algumas questões importantes para a fruição da obra: só há uma vaga para trabalho, os dois concorrentes esperam que venha alguém buscá-los para a entrevista, ninguém sabe como será a seleção e nem exatamente qual é a proposta. Ao longo de toda a primeira cena, o diálogo entre Niccolo e Filippo trata sobre o passado individual e comum de ambos e expõe o presente desse encontro: eles estão felizes de se rever, mas temerosos, pois ali um é concorrente do outro. No entanto, o tempo passa muito devagar e não há sinais de transformação na história. 

Então, eis que chega um terceiro personagem. Mais velho que Niccolo e Filippo, Peppino (Zé Adão Barbosa) se diz mentor dos outros dois. Como os outros, esse também vem para a audição e também não sabe nada sobre o processo seletivo. O que acontece com a história a partir da entrada desse terceiro personagem? A desistência da trama. Na metade da peça, a audiência já tem instrumentos necessários para compreender que é possível que nada aconteça. “Old clown wanted”, fazendo alusão a “Esperando Godot”, do irlandês Samuel Beckett, recusa o tempo, isolando os personagens em uma situação absurda em que não há causa e efeito, em que não há progressão, em que o nada é tudo o que se tem. E é aí, nesse momento, que a peça atinge o seu auge estético. 

Na metade do texto, os três palhaços começam a duelar entre si, mostrando suas habilidades através de seus números clássicos. Niccolo mostra sua pantomina, provando que consegue - sem qualquer outro recurso além do corpo - mostrar um homem se livrar de outro que o agride com uma arma, descer escadas e roubar uma melancia. Filippo, por sua vez, apresenta um belíssimo número de mágica, fazendo com que bandeirinhas coloridas saiam de dentro de um recipiente vazio. Por fim, Peppino defende que o futuro da palhaçaria está no teatro de comédia e se apresenta como um ator “de verdade” com um número de intepretação. Diante dos três quadros, o público deve entender a pergunta do texto: aonde chegou a evolução humana? 

Por ter divertido plateias pela vida toda, por ter se dedicado às artes, à beleza, à poesia durante toda a sua existência, Niccolo, Filippo e Peppino agora parecem estar prestes a implorar por um vaga de emprego que eles nem sabem exatamente como é. Esse panorama trágico, imposto pelo mundo do qual nós todos fazemos parte, os alça de suas naturezas cordiais e sorridentes para a selvageria capitalista que Matéi Visniéc tantas vezes denuncia em suas peças. “Old clown wanted” termina como começou na forma, mas, em conteúdo, os personagens já são outros, ou talvez já não existam. Eis um belo texto para se aplaudir! 

Coesa, coerente e firme: a direção de Adriane Mottola 
A montagem da Companhia Estúdio Stravanganza começa por reunir alguns entre os melhores profissionais de artes cênicas no teatro gaúcho. Adriane Mottola, talvez a principal diretora de teatro do sul do país, é quem assina a encenação de “Old clown wanted”, que, em Porto Alegre, adotou o título “Pequeno trabalho para velhos palhaços”. O nome faz alusão ao anúncio de emprego ao qual Niccolo, Filippo e Peppino atenderam. Os três personagens são interpretados por Arlete Cunha, Sandra Dani e Zé Adão Barbosa respectivamente, todos eles atores donos de sólidas carreiras profissionais na arte de interpretar por cujo trabalho já receberam inúmeros troféus, homenagens e plateias lotadas. 

Mottola, assistida por Jéferson Rachewsky, investe em uma aura onírica para sua versão do texto, mas sustenta que seus Niccolo, Filippo e Peppino são humanos e não meras figuras de linguagem apenas. Diferente do modo como montagens ao redor do mundo caracterizaram os personagens logo de início, aparentemente Mottola optou por apresentar os personagens com toda a dignidade. É visível que eles se vestiram para a entrevista com suas melhores roupas, o que já desperta sobre suas figuras enorme carisma. Ao longo da peça, porém, vemos os três velhos palhaços empreenderem enormes esforços nas ações pelas quais foram consagrados. Isso pontua o poder inegável da velhice a qual todos nós nos dirigimos, e renova o carisma deles para com a audiência. Em um texto quase que inteiramente linear, com habilidade, Mottola deixa que a chegada da decrepitude na recepção da peça faça as vezes de fator transformador da dramaturgia cênica. 

A citação do vestuário e da movimentação dos atores, por exemplo, quer anunciar o desacerto que pauta a existência desses personagens na esfera espetacular. A princípio, os três palhaços denunciam um ponto de vista que lhes acusa de não servir ao mundo de hoje, de estarem obsoletos, desconectados, de serem inúteis: um peso que a juventude precisa suportar. Em todos os aspectos da montagem da Stravaganza, se veem contornos dessa reclamação: o ambiente onde eles estão é grande, mas abafado e sem qualquer conforto; nenhuma informação lhes foi dada; não há respeito, cordialidade, afeto. Na cena dos números, eles reagem sendo eles mesmos, trazendo suas melhores habilidades em seus repertórios. A reação final, muito mais terrível, também é uma resposta à pressão que lhes quer tirar do jogo da vida à força. Por construir todo esse discurso de modo claro, coeso, coerente e belo, a direção de Adriane Mottola é excelente. Ela providencia um espetáculo com uma ideologia bem demarcada e que tem tudo a ver com o mundo em que vivemos e seus desafios. 

Um trio de excelentes atores em ótimos trabalhos 
Arlete Cunha, Sandra Dani e Zé Adão Barbosa apresentam ótimos trabalhos, com destaque para as duas primeiras que vencem o desafio de esquentar a peça para a tranquila chegada de um terceiro personagem. Em Cunha, vê-se uma infantilidade perigosa em seu tom de voz e em suas entonações que revela a determinação de seu Niccolo em se sobressair diante dos demais candidatos. É apaixonante identificar o quanto sua personagem se esforça para se destacar e, ao mesmo tempo, o quanto sofre pela obrigação de tornar perdedores seus velhos amigos. 

Em Dani, Filippo faz pulsar uma energia mais requintada, mais “classuda” e que parece nunca ter sido muito afável com a baixa (?) palhaçaria. O personagem chega à entrevista depois de Niccolo, mas traz a certeza de que ganhará facilmente a disputa quando o entrevistador prestar a atenção no comportamento de seu concorrente. É bonito ver sua afetação brilhar na cena de mágica, quando a peça é aplaudida em cena aberta (na sessão que essa crítica analisa). 

Zé Adão Barbosa leva ao seu Peppino um delicioso mau humor como de quem tem a mais clara consciência de que é o melhor do trio. Citando Shakespeare, trazendo um cartaz de uma peça que ele supostamente fez e exortando a arte de interpretar para além de espetáculos de variedades, ele representa a pior ameaça aos outros dois. Barbosa, com enorme carisma, permite ao seu palhaço fluente comunicação com o público, servindo-se bem dos privilégios do melhor personagem de Matéi Visniéc nessa peça. 

Excelente colaboração da equipe criativa 
“Pequeno trabalho para velhos palhaços” tem ainda enorme valor estético pela excelente colaboração que lhe prestam os demais elementos do espetáculo: o cenário de Zoé Degani, o figurino de Daniel Lion, a iluminação de Ricardo Vivian e a trilha sonora de Álvaro RosaCosta. 

A peça começa quando um enorme painel de fundo sobe em direção ao teto formando a parede que limita por um dos lados a antessala da entrevista. É talvez uma metáfora para a lona de um circo, mas também representa a dureza do mundo profissional cuja recolocação os candidatos à vaga estranhamente almejam. Há ainda duas cadeiras diferentes e um suporte para pendurar casacos ao fundo, tudo feito com muita elegância, extremo bom gosto e inteligência. Nos figurinos, Daniel Lion investe na composição das imagens tradicionais dos palhaços com uma paleta reduzida. Exploram-se os tons terrosos e confiam-se nos modelos clássicos (calça, gravata, colete, casaca, chapéu), indo em caminho oposto ao colorido tradicional. Esses palhaços não estão em um picadeiro, mas em uma entrevista de emprego e, se essas roupas não lhe caem bem, essa é uma excelente metáfora de Lion para o desconforto da entrevista para os candidatos. 

O desenho de luz de Vivian sobre o cenário protagoniza o clima onírico presente no espetáculo. Esse tom afasta a peça do ideário de uma comédia rasgada, mas oferece a ela a chance de, dentro de uma poética que lhe é própria, se movimentar na construção de uma imagem que vem de longe, de tempos atrás, e invade o presente e lhe questiona. A trilha sonora de RosaCosta, da qual faz parte a “Canção para Velhos Palhaços”, originalmente composta por ele e por Leandro Maia para o espetáculo, participa do todo de modo definitivo. Tudo o que é escutado no ambiente sonoro proposto faz da alegria, da tensão, da crítica, da saudade e do medo caminhos por onde o quadro é levado, contribuindo com ele na construção de seu sentido. Em todos esses aspectos, eis um trabalho excelente. 

Ótimo início de 2018 
Junto com “Latidos”, de Júlio Conte, “Pequeno trabalho para velhos palhaços” inaugura o ano de 2018 no teatro gaúcho com muito orgulho. A peça abriu o 19o Porto Verão Alegre, no Theatro São Pedro, em janeiro e agora cumpre sua primeira temporada no Teatro Renascença. Vale a pena assistir a essa montagem tão nobre, que traz beleza a uma grade de programação teatral tão castigada pela realidade política brasileira infelizmente. Valorize de verdade o teatro gaúcho, indo ao teatro. 


Ficha técnica: 
Texto: Matéi Visniéc 
Direção: Adriane Mottola 
Elenco: Arlete Cunha, Sandra Dani e Zé Adão Barbosa 
Assessoria clownesca e Assistência de direção: Jéferson Rachewsky 
Assessoria ilusionismo: Eric Chartiot 
Cenário: Zoé Degani 
Figurino: Daniel Lion 
Composição sonora original: Álvaro RosaCosta 
“Canção para Velhos Palhaços”: Álvaro RosaCosta e Leandro Maia 
Piano: Simone Rasslan 
Iluminação: Ricardo Vivian 
Identidade visual: Sandro Ka 
Fotos: Julio Appel 
Vídeos: Daniel Jainechine 
Produção: Adriane Mottola e Áquila Mattos 
Realização: Cia. Stravaganza

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